Cinema/TV? É mais Evento/Não-Evento

A diferença entre cinema e TV está-se a esbater progressivamente. Neste momento, começo a ver isto mais como evento/não-evento. A prova disso mesmo? Três antestreias repletas de pessoas (no Arrábida Shopping, no Colombo e, pelo sétimo ano consecutivo, sala cheia no El Corte Inglés) e, numa escala mais pequena, um pub com dois dos seus espaços particularmente bem preenchidos. A seguir, ficaram para ouvir três idiotas a falar do que acabaram de ver. (Sendo que um desses idiotas sou eu.)

Game of Thrones está confirmada como evento. Aliás, anteontem vi várias pessoas, em Portugal, a perguntar onde podiam ver o episódio. Não “em que canal”, mas em que espaço físico. Quer seja por não terem o Syfy subscrito, quer seja por quererem ver com amigos, quer seja por não o quererem ver sozinhos. Está a acontecer algo que foi tão bem retratado em cenas de um episódio de Dharma e Greg sobre o final de Seinfeld,1 também ele um evento televisivo. Uma situação pouco usual por cá, mas que acontece bastante lá fora em situações pontuais. (Episódios especiais, finais de temporada, de série, etc.)

Se quiserem um sítio para ver os episódios, a Cervetoria vai acompanhar a temporada. E, de duas em duas semanas, estarei lá a gravar este podcast sobre a série. Apareçam!

Obrigado ao Edgar e à Liliana, e à Cervetoria. A Cabeça do Ned está de volta!


  1. S01E22, “Much Ado During Nothing” [YouTube

Sharknado 3: Oh Hell No! (2015)

Sharknado_hero_ian_car

Ainda pior. Ainda melhor. Há spoilers, cuidado.

Como explicar este paradoxo? Simples. Os filmes do Syfy sempre foram conhecidos por serem francamente maus. Possivelmente terríveis. No entanto, o absurdo acaba por convidar a uma experiência colectiva que pode ser das melhores experiências que poderão ter numa sala de cinema (muitas vezes, o álcool ajuda). E Sharknado 3 não foi excepção. Num terceiro tomo que teve pormenores francamente bons (SHARKS! IN SPACE!) e nos quais se começa a notar alguma preocupação (os créditos iniciais são um mimo visual muito ao estilo de um blockbuster de Hollywood, nota-se um guião ligeiramente mais limpo – ou seja, sem algumas frases absolutamente desnecessárias), Anthony C. Ferrante não se esqueceu do que tornou o filme um sucesso (essencialmente, a cena final do primeiro filme, em que Fin Shepard entra por um tubarão dentro com uma moto-serra e resgata uma das raparigas com mamas do filme) e, tal como em Sharknado 2, potenciou o absurdo a um nível inenarrável. Ou aparentemente não, visto que já conseguiram fazer três filmes.

Algumas notas soltas:

  • Aquilo que rodeia Fin Shepard, personagem de Ian Ziering, está cada vez mais parecido com Johnny, personagem de Tommy Wiseau no péssimo-excelente The Room: Todos o adoram, ele é o maior, é uma excelente pessoa.
  • Mark Cuban, como actor, é um excelente empresário. Nós sabemos disso, ele sabe disso. E este tipo de filme é o único em que Cuban pode ser outra coisa que não ele próprio e ninguém se importa com isso.
  • As mamas da Cassie Scerbo estão de volta. E a Cassie Scerbo também. Cassie Scerbo que, como actriz, é uma excelente modelo.
  • Depois de Fin, Gil. A próxima nova personagem com nome da anatomia de um peixe será chamada de Teeth. Já viram, uma rapariga chamada Teeth? Era gozada para toda a vida.
  • Post Traumatic Shark Disorder.
  • Frankie Muniz a morrer como o Cavaleiro Negro dos Monty Python.
  • Pelo menos uma referência aos Marretas, uma referência ao Armageddon, George R.R. Martin a sofrer aquilo que, para muitos, já merecia.
  • Moto-serra laser. É preciso dizer mais alguma coisa?

Há uns dias li um excerto de um texto do Screen Crush no blog do meu comparsa (e não-familiar) Carlos Reis sobre uma desculpa que se dá em relação a filmes parvos: “Desliga o cérebro e desfruta do filme”, diz-se. Tal como ele (e como o autor do texto), ão posso concordar com isto. Sim, Sharknado é um filme estúpido. É um filme que, supostamente, é feito para não exigir grande esforço mental. No entanto, exige. Exige de nós, telespectadores, um ENORME esforço de suspensão da descrença e de acreditar que a ciência mostrada no filme (um tornado com tubarões causado pelo aquecimento global, tubarões a conseguir sobreviver nas nuvens, “bio-meteorologia”, tubarões – SABE-SE LÁ COMO! – a sobreviver no espaço) existe… Naquele mundinho. No universo criativo de Sharknado, desde que tenha tubarões e alterações climatéricas, Sharknado 3 provou que tudo é possível. E o que nos capacita para fazer essa suspensão da descrença e admirar os novos níveis de parvoíce a que o trabalho de Anthony C. Ferrante chega é, precisamente, o nosso cérebro.

Expectativas para o Sharknado 4? Que a April sobreviva (Sharknado sem Tara Reid não é a mesma coisa e Tara Reid sem Sharknado não é a mesma coisa – até porque a rapariga tem de sobreviver, não é?) e esperar uma justificação “científica”. E que a malta do Today Show sobreviva. Sim, eles foram atacados no final e provavelmente morreram. Mas era fixe se sobrevivessem a todos os filmes. Era um running gag com piada.

Para acabar, uma referência ao passado recente: Comecei um podcast chamado O Que Quer Que Isto Seja (link, iTunes), e no primeiro episódio deram-me a hipótese de conversar com Ian Ziering. Podem ouvi-lo aqui (e obrigado ao Syfy Portugal pela oportunidade).

NOTA: Não vou dar estrelas. Vou usar emojis de uma forma relativamente arbitrária. Porque se der estrelas vocês só ligam às estrelas. E isso não funciona (excepto no Público). Hoje há beterrabas, sendo que o valor que é dado às beterrabas é impossível de converter para estrelas, bolachas, sapos ou outros emojis. Ou seja: Leiam a porra do texto.

🍆🍆🍆🍆