#TaçaPortugalAllianz: Como não transmitir um jogo de futebol

(Hei-de escrever aqui sobre a minha experiência no Jamor. Primeira vez numa final da Taça. E ainda tenho de vos falar do Andebol! Mas hoje não vou falar sobre isso.)

Quem já foi ver jogos ao Jamor sabe que, quanto mais afastado do campo, melhor visão se tem do jogo. E o Jamor, para quem vê na TV, até tem bons ângulos e, de alguma forma, um ideal romântico.

No entanto, a RTP conseguiu estragar todo esse romantismo.

Nas últimas semanas, o Reino Unido tem sido assolado por atentados. Depois do atentado de Manchester, Ariana Grande decidiu juntar vários músicos e fazer um concerto para 50 mil pessoas, para angariar fundos para ajudar no apoio às vítimas (e às famílias das vítimas) do bombista. O concerto organizou-se relativamente depressa, bem como a transmissão televisiva global do mesmo: A Eurovisão (UER) comprou os direitos e distribuiu o sinal aos seus membros, onde está incluída a RTP. Acontece que a RTP1 já se tinha comprometido a transmitir a final da Taça de Portugal Feminina no mesmo dia (4 de Junho), com o jogo a começar às 17h15. Não há problema: a RTP não transmitiria o concerto em directo (afinal, ele também estava a ser transmitido no YouTube) e passava em diferido, a seguir ao filme do Cristiano Ronaldo.

Na noite de dia 3, um ataque terrorista em Londres torna-se na principal notícia e, obviamente, as prioridades dos noticiários mudaram. Não esperava era que as da programação também: a RTP1 decide colar-se à onda mediática e, durante a tarde, decide passar o concerto às 19h.

“Não há crise,” deve ter pensado o génio que fez isto, “afinal o jogo começa às 17h15, tem duas partes de 45 minutos e um intervalo de 15. Acaba às 19h e começamos logo com o concerto.” Quem tomou esta decisão não percebe nada de futebol e também não deve perceber que estava a abrir uma situação de discriminação sexual: Mesmo com o jogo a acabar às 19 horas em ponto, porque raio não iam transmitir a entrega da Taça em directo? Erro 1 – Discriminação face ao jogo da Taça masculina. 1 E, já agora, um jogo desta dimensão (mesmo considerando que o número de adeptos de futebol feminino é menor comparado com o masculino – estou apenas a falar da qualidade das equipas em campo) nunca, nunca iria ter apenas 45 minutos em cada parte e nunca iria acabar à hora “certa”. Para um jogo de futebol devem-se sempre contar duas horas, pelo menos. Erro 2 – Incapacidade de estabelecer horários. E era uma final. Ou seja, há sempre a hipótese de se estender para um prolongamento (2 x 15 minutos, mais pausas antes e entre as partes) e penalties (tempo variável). Uma final tem de ficar sempre com uma margem. Por isso é que começa às 17h15: Estende-se até às 20h, seja com pós-jogo ou prolongamento/penalties, come um bocado do Telejornal, se for preciso. Erro 3 – Incapacidade de esperar o inesperado. Resumidamente: tinha tudo para dar merda.

E não deu apenas merda: Deu merda de uma forma absolutamente espectacular. Como, como é que ninguém na régie da RTP não teve noção daquilo que estava a fazer? Vamos aos exemplos:

84′ de jogo: 19 horas. (Eu avisei.) O narrador do jogo, João Miguel Nunes, refere que se vai interromper a transmissão para passar para Manchester. Isso, RTP. ‘Bora interromper um jogo de futebol para mostrar qualquer outra coisa. A RTP1 decide… Fazer um split screen. Ecrã dividido em dois, barras azuis, de um lado o jogo e do outro o concerto. Som do concerto. Isto dura quatro minutos. Erro 4: Split screen.

O jogo termina empatado, 1-1, segue para prolongamento. (Eu avisei.) Na pausa entre o jogo e o prolongamento, a RTP1 decide ir para Manchester em ecrã inteiro. Algo impensável numa final masculina. (Quanto muito, seria publicidade.) A emissão retoma 5 segundos DEPOIS do pontapé de saída.

Aos 93′, alguém na régie tem uma ideia fantástica: “Meus caros, as redes sociais estão-se a passar connosco, temos de arranjar uma forma de termos as duas coisas no ar!” Resolvem fazer Picture-in-Picture: Um ecrã em cima de um ecrã. Jogo no ecrã principal, concerto num ecrã sobreposto. Som do jogo de futebol. O que faz todo o sentido: como todos sabemos, quem vê concertos gosta de ver a cenografia e os artistas e não quer saber da música. Excelente ideia, estúpidos!

Ora, este rectângulo fica numa posição complicada: Muito elevado em relação às bordas e muito, muito grande. Ora tapa a área na marcação de um canto…

… ora o Robbie Williams a cantar não-sei-o-quê-porque-não-havia-som-do-concerto tapa uma jogadora do Braga a limpar a bola junto à linha lateral…

… ora estava uma jogadora do Sporting a ser assistida e a ser tapada por 50 mil pessoas.

Erro 5: Picture-in-Picture. Como se o rectângulo não bastasse, e porque aquele espaço em baixo estava muito vazio, a RTP decide pôr MAIS UM RECTÂNGULO a dizer que aquilo era um directo de Manchester.

Nós sabemos. E o jogo fica mais tapado. Se eu quisesse ver tantos pop-ups, ia a um site de pornografia. Erro 5.1: Pop-ups. Sim, RTP1. Acabei de vos comparar a um qualquer site manhoso de pornografia. Segundos depois disto, a RTP1 tira o PiP e volta a Manchester em split screen, com som de Manchester. Dois minutos assim.

Livres perigosos? Situações de golo? Nah. Neste momento, a RTP1 estava-se a cagar. Erro 6: o operador de Serviço Público de Televisão estar-se a cagar para o que está a fazer. Começo a acreditar que foi obra do destino o golo da vitória do Sporting (aos 104′) não ter calhado num período em que a emissão estava reduzida a um rectângulo rodeado por azul e pelo Robbie Williams.

E se pensam que não pode piorar… A 2ª parte do prolongamento vai começar, toca a pôr split screen de Manchester.

Pontapé de saída da 2ª parte do prolongamento, concerto em ecrã inteiro na RTP1. 10 segundos depois lá se apercebem da merda que fizeram (desta, pelo menos) e volta ao split screen. Os primeiros 90 segundos são passados assim. Como é possível haver tanta incompetência?

Entretanto, e até ao fim do jogo, não fizeram mais nada. A não ser… transmitir as comemorações iniciais da equipa, ter o João Miguel Nunes a dizer “já voltamos” e passar para publicidade.

E para o Telejornal.

Onde abrem com notícias. E se mantêm. Não voltaram ao Jamor. E não transmitem a entrega da Taça em directo. (Só em diferido, às 20:24 – aliás, é a única referência que fazem ao jogo. O resumo e as entrevistas a intervenientes só passaram no 24 Horas, na RTP3 – mais de 4 horas depois do fim do jogo.

RTP, não vou estar com meias palavras: vocês f*deram isto, à grande. Restam-me várias questões:

  • Porquê a alteração súbita? Ânsia por audiências?
  • Porque não transmitir o concerto na RTP2? Estavam, essencialmente, com repetições. E as séries: Não era por se adiar um episódio uma semana que as 5 pessoas que as vêem atentamente ficavam chateadas.
  • Atendendo a que esta alteração para a transmissão do concerto foi feita hoje: porque não transmitir o concerto na RTP3? Os motivos seriam aceitáveis: seria algo que se enquadrava facilmente na actualidade noticiosa.
  • Porquê esta demonstração de amadorismo e de indecisão sobre o que transmitir? Porquê darem cabo da experiência de visualização de um jogo de futebol?
  • Porquê darem cabo da promoção do futebol feminino em Portugal? Transmitir um jogo desta forma, com interrupções, mostra (e confirma) que não levam isto a sério. Isto seria impensável se fosse na final da Liga dos Campeões ou na Taça masculina; porque raio é que a final da Taça Feminina é diferente? É porque são mulheres? É, não é? É porque são mulheres e vocês estão-se pouco marimbando para o futebol feminino? Vá, admitam lá. Fica-vos melhor admitir do que não dizerem nada, mesmo que a vossa admissão vos coloque numa posição de discriminação sexual.
  • A Federação Portuguesa de Futebol, vai fazer alguma coisa quanto a isto? Protestar? Algum tipo de resolução interna?

Isto vai seguir directamente para Jorge Wemans, provedor do telespectador da RTP. Não vos vou dizer para enviarem um e-mail para provedor.telespectador@rtp.pt. Ainda lhe entupimos a caixa de correio. A sério, não lhe enviem nenhum e-mail. Não lhe queremos estar a causar stress nos próximos dias.

Caso encontre alguma forma de as contactar, também seguirá para a direcção de informação (têm o “pelouro” do desporto) e para a direcção de programação – ou, como é conhecida a partir de hoje, direcção de indecisão.

Já agora: a RTP tem os direitos dos jogos da Selecção Nacional Feminina no Euro 2017. Se houver um mega-concerto de solidariedade à mesma hora de um dos jogos… estamos f*didos.


  1. Isto sem falar dos pré-jogo inexistentes, da promo que se limitava a mostrar faltas e da falta de promoção do jogo desde o momento em que foi dito que o iam transmitir e nem se deram ao trabalho de dizer quem o ia disputar. 

Duas séries (I): Galavant e Terapia

Vamos lá tentar fazer uma coisa destas regularmente, shall we? Terei duas séries sempre que escrever aqui. O nome indica isso mesmo. Começo com Galavant e Terapia.

Galavant (ABC)

Regresso em força da comédia musical de Dan Fogleman, depois da renovação surpresa da temporada passada. Em cinco semanas se despacharam 10 episódios (dois em cada domingo de Janeiro), se bem que acredito ser a melhor forma de transmitir a série (combinação ritmo/duração/utilização das músicas). A música (de Alan Menken, o tipo que nos deu as bandas sonoras de The Little Mermaid, Beauty and the Beast, Aladdin e Pocahontas e que ganhou 8 Óscares à pala disso) continua bem presente, bem como as letras subversivas (e carregadinhas de meta-piadas) de Glenn Slater, se bem que por vezes algo preguiçosas (poucas palavras. Ou seja: Se gostaram da temporada anterior, continuem a ver. Voltamos a ter actores convidados de luxo (Hugh Bonneville regressa a este mundo, Kylie Minogue também aparece, “Weird Al” Yankovic volta a fazer uma perninha), músicas gozonas, um elenco competente (especial destaque para Timothy Odmunson pela performance e para Karen David pela cantoria e… outros motivos) e muito humor. Aproveitem o que podem, porque as audiências estão uma m*rda.

Se nunca a viram, não sabem o que perdem. Criada por Dan Fogleman, o homem que nos trouxe a mal-amada The Neighbors e escreveu os filmes Tangled e Crazy, Stupid, Love., Galavant passa-se num reino fictício e segue as aventuras do herói epónimo que tenta reclamar o seu final feliz (“a fairytale cliché”), tudo num ambiente medieval e musical. Aliás, nada me tira da cabeça que o Alan Menken está a fazer esta série para ganhar um Emmy, o único prémio que lhe falta para ter conquistado todos os majors (EGOT: Emmy, Grammy, Oscar e Tony).

Se viram (e gostaram) alguma coisa desta lista é provável que gostem de Galavant:

  • Community — meta-humor, e o Magnitude (Luke Youngblood, POP POP!) participa nela);
  • The Neighbors — mesmo criador, também tem meta-humor, também teve azar com as audiências e deu a Alan Menkan a sua primeira nomeação a um Emmy com o seu primeiro episódio musical;
  • Robin Hood: Men In Tights (Herói em Collants) — O ambiente da série é semelhante ao do clássico de Mel Brooks.
  • Qualquer coisa com o Vinnie Jones e gostaram dele: Vinnie fuckin’ Jones! E canta! E não se safa nada mal!

Terapia (RTP)

Virgílio Castelo – actual consultor de ficção da RTP1 – protagoniza a adaptação portuguesa do formato israelita BeTipul (provavelmente a versão mais conhecida cá será a americana In Treatment, da HBO, protagonizada por Gabriel Byrne). Já tinha visto alguns episódios da versão americana e achei o conceito interessante: Uma série diária, quase sempre um diálogo a dois, intenso (como uma consulta de psicoterapia pode ser).

Em Terapia (vêem o que fiz aqui?), Virgílio Castelo está muito bem no papel de Mário. Conseguiu apanhar o olhar de um psicoterapeuta (infelizmente. De todos os pacientes tenho que dar um destaque óbvio a Nuno Lopes e a Catarina Rebelo. O primeiro por mostrar mais uma vez que é um dos melhores actores portugueses no activo. O que dizer sobre Nuno Lopes que já não tenha sido dito? É sempre fantástico vê-lo no ecrã. Quanto a Catarina Rebelo, a grande revelação (pelo menos para mim, que me recuso a ver novelas). Um papel que não é de fácil interpretação. A miúda, episódio a episódio, reforça o motivo de aposta. Nota ainda para Leonor Silveira, naquele que é (aparentemente) o seu primeiro trabalho em televisão em mais de 25 anos de carreira. Excelente escolha para o papel (se bem que, por vezes, não ache que a entrega do texto seja tão boa quanto podia ser).

No entanto, nem tudo são rosas: Por muito que nos tentem impor, não há o mínimo de química entre Laura (uma Soraia Chaves sempre sedutora e a interpretar muito bem o papel que lhe é dado) e Mário. É que simplesmente não há. Fico com arrepios quando vejo aquelas cenas, mas não são dos bons. É cringeworthy. Parem. Vá lá. Dói muito ver essas cenas. Fico com vontade de cortar os pulsos (figurativamente). Outra coisa que dói? A utilização da música, especialmente quando é dito algo importante. Dizem o nome de alguém novo? “Ta-na-na-naaaan…” Alguém dá um chapadão? “Ta-na-na-naaaan…” Está um tipo dos CTT Expresso à porta com uma encomenda? “Ta-na-na-naaaan…” Às vezes não é assim tão importante ter estes momentos. Aliás, eu passava muito bem um episódio só com os diálogos entre os personagens e foley.

Apesar deste parágrafo de queixas, Terapia é uma série bem conseguida e a demonstração de que “sim, é possível” fazer outra coisa em Portugal que não novelas e ter qualidade no guião (tudo bem que é estrangeiro, mas tem qualidade).

P.S.: Nota positiva ainda para a estratégia de distribuição da RTP: Os episódios passam na emissão linear da RTP1 só depois das 22h, mas estão disponíveis para serem vistos no RTP Play a partir da hora de almoço. Excelente ideia.

Quando é que isto volta? Não sei. Um dia. Quando me apetecer.