Um Conto de Dois Sportings

Foi o pior que vi, foi o melhor que vi, foi a era da preguiça, foi a era do sacrifício, foi a época da incredulidade, foi a época da crença, foi a temporada da falta de noção, foi a temporada do amor e da paixão, foi o Inverno do desespero, foi a Primavera da esperança, não tivemos nada que se aproveitasse, temos muito para aproveitar, deviam ter visto o jogo delas, deviam ter sido vistas por eles – em suma, um jogo foi tão distinto do outro, que o que devia ter mais importância, para o bem ou para o mal, não o foi visto dessa forma.

Perdoem-me a pobre adaptação de Dickens, mas foi o que se viu no Estádio José Alvalade hoje.

De manhã1, um Sporting que, não tendo (realisticamente) nada para disputar senão fazer por atacar o 2º lugar e tentar o apuramento directo para a Liga dos Campeões (difícil, mas não impossível) e que se tem apresentado como estando já a pensar na próxima época, mostra-nos um dos piores jogos que vi na minha vida, um jogo que marca o fim de 62 anos do Belenenses sem ganhar na condição de visitante (nunca tinha ganho em nenhum dos Estádios José Alvalade, vejam bem), e o fim de um ciclo de sete derrotas consecutivas para os azuis do Restelo.

Nas substituições, quem é que JJ decide pôr em campo? Joel “festejo um golo de empate no último minuto de compensação como se tivesse ganho a Champions” Campbell e Luc “Hernán Barcos versão 2017” Castaignos. (Sinceramente, nem achei esta entrada assim tão má – ele ajudou no desbloqueio do jogo no Restelo, atraindo os defesas azuis e dando espaço ao Bas Dost para marcar.) Nem pego na entrada do Geraldes, acho que ele ainda tem que melhorar mais um bocado (ainda está um bocado verde – pun not intended) e que há demasiado hype (muito jornal, muita tentativa de mediatismo) à volta dele. O Sporting desta época está demasiado dependente de certos jogadores. Se um ou dois faltam, está o caldo entornado. (Foi assim com Adrien, foi o drama de se arranjar um substituto de jeito para William.)

O pior disto tudo? Vê-los, a seguir ao jogo, felizes da vida, a partilharem fotos em iates ou mais preocupados em cumprir acordos de patrocínios por causa do Dia da Mãe. Há jogadores ali que eu sei que são francamente bons e que já demonstraram isso no passado (p.e.: Bryan Ruiz, William), mas que desapareceram do mapa (Ruiz desapareceu do mapa após o falhanço contra o Benfica, William perdeu velocidade após o Euro). No geral, há demasiada apatia perante os adeptos. Nem tiveram tomates para ir à Curva Sul (e o Geraldes bem os esteve a puxar).

Não sei até que ponto é que os jogadores da equipa de futebol sénior masculino do Sporting se apercebem que, para além do simbolismo e do peso da camisola e yada yada yada… Para além disso tudo, carregam o entusiasmo dos adeptos às costas. Num país que só liga ao futebol para inferiorizar os outros (não, não existe cultura desportiva em Portugal, muito menos futebolística), e mesmo sendo o Sporting um Clube eclético, é sempre o futebol que move montanhas e públicos e é sempre o futebol que entusiasma 70%/80% do público.2 E isso vê-se quando falamos do outro Sporting.

O outro Sporting, o melhor Sporting, O Sporting, foi aquele do qual uns quantos milhares fugiram3 envergonhados com a derrota. Os 6500 que assistiram à equipa feminina podiam ter sido o dobro, caso a equipa masculina tivesse feito o seu trabalho. A entrada era gratuita, o dia estava bonito, o Campo Grande estava óptimo para se apanhar um sol ou para uma sesta à sombra das árvores (em vez de ser a meio de uma partida de futebol, no meio do estádio), excelentes condições para passar o tempo entre jogos.

Não foi o melhor jogo delas: nota-se o cansaço acumulado da época (não ajuda Nuno Cristóvão não ter feito qualquer substituição, mas respeito a decisão) e o Valadares apresentou-se bem organizado. O domínio do Sporting foi absoluto, mas só se aproveitou um golo, da Diana Silva. Ana Borges esteve a mostrar porque é que merece ser considerada a melhor jogadora portuguesa da actualidade, com a assistência para o golo e a criação de jogadas rápidas pelo corredor direito. Por vezes embirro com ela (lembra-me o Nani, tanto para o bom como para o mau), mas é inegável não falar do quão importante ela tem sido para a equipa (foi ela que sofreu a falta que nos deu o pénalti frente ao Braga).

Se querem pôr fichas em alguma equipa do Sporting, o futebol feminino pode-se juntar facilmente ao Futsal. Tenho acompanhado o nascimento e crescimento deste projecto e as diferenças no entrosamento da equipa são notórias, desde o jogo de apresentação contra o SC Huelva, da 1ª Liga Espanhola (em que a equipa já tinha dado bons sinais) até agora. Jogam futebol por amor ao jogo e várias delas vivem e sentem o Sporting desde pequenas. Numa época em que se queria estabelecer as bases e lutar pelo título, estão agora a 3 pontos de o conseguir vencer e estão a um jogo da final da Taça de Portugal (4 de Junho, Jamor). No próximo domingo, sugiro-vos que passem no campo do Estoril Praia, onde se joga a 2ª mão da meia-final. (Estamos a ganhar 2-0.) Se estão no Porto (ou à volta), passem no fim-de-semana a seguir (em princípio no dia 20) pelo antigo estádio do Inatel, para o jogo (contra o Boavista) que pode garantir o primeiro campeonato às seniores femininas – e, encaremos o facto, o primeiro campeonato do futebol sénior do Sporting em 15 anos.

Nota final para o relvado, talvez o melhor pormenor do dia: nunca, em outros anos, se podia pensar em ter um double-header no estádio. Se já parecia um batatal, era da maneira que se tornava um batatal. Mas este ano, e com a remodelação completa do relvado (rega, drenagem, terra), já se pode dizer que a culpa dos maus resultados não é da relva. Não esperava que reagisse tão bem a dois jogos seguidos. (Provavelmente só reagiu bem porque no primeiro jogo não comeram a relva…) No final do segundo jogo a relva já estava a ficar um pouco seca (o sol não perdoou) mas, de resto, já dá para dizer: TEMOS RELVADO!


  1. Gostei da ideia do jogo ser feito de manhã. Mas, como isto é o Sporting, há uma lógica envolvida: se corre bem da 1ª vez, continua (mesmo que deixe de ser especial); se corre mal, nunca mais se faz. E dá-me pena: É um excelente horário para trazer famílias a Alvalade e até gente de fora de Lisboa, que, vindo a esta hora, consegue garantir uma hora de regresso a casa satisfatória. E é uma excelente hora para garantir que se joga com a luz do dia e que as bancadas estão à sombra! Os adeptos agradecem! 
  2. Olhómetro. 
  3. Os que estavam a pensar passar lá o dia – afinal, era Dia da Mãe e obviamente que há pessoas com planos para lá do Sporting. 

Tondela x Sporting: Isto é Futebol. Não é Andebol, nem Voleibol, nem Judo.

Panorama Estádio Municipal de Aveiro, CD Tondela x Sporting CP
Foto panorâmica do Estádio Municipal de Aveiro antes do jogo CD Tondela x Sporting CP, jogo de abertura da Liga NOS 2015/16. 22003 espectadores. Tirada com iPhone 5s.

A equipa de Voleibol do Tondela faz-me lembrar a equipa de Andebol do Paços de Ferreira em 2006. Lembro-me que na era se falou imenso disto. Mas do de hoje… Não há nada para falar.

Aparentemente o lance que antecede o lance do penalty sobre o Gelson (ou seja, o João Pereira estar dentro do campo – que o está, diga-se) é mais importante. Então se vamos falar de lances pré-pré-golo, deixem-me dizer que a decisão de Carlos Xistra na “falta” do Naldo é correcta… No Judo. Nathan Junior fez um yuko sobre Naldo, talvez mesmo um waza-ari (não havia ali força suficiente para um ippon). Depois lá se lembraram que isto não era Judo, era Futebol. Mas disto ninguém fala. Será que interessa falar? Ah, e já agora: Aquele “movimento técnico” nem no Voleibol é válido: É transporte de bola.

Quanto ao jogo, o Sporting facilitou um pouco perante o Tondela. Apesar da maior posse de bola (bem acima dos 60%), não foram capazes de concretizar muitas situações em que o podiam fazer. Matt Jones também não esteve mal na baliza do Tondela (fez algumas boas defesas e não tem culpa em nenhum dos golos) e a equipa do interior também conseguiu algumas boas oportunidades. Não só porque o Sporting deixou, mas também porque fizeram por isso: Notou-se estudo do jogo contra o Benfica por parte de Vítor Paneira, que precisará de jogos mais calmos para mostrar claramente o que vale na I Divisão. O Tondela está na Liga NOS, mas não joga para o campeonato do primeiro lugar.

Siga. Está ganho. Só na Liga há mais 33 para vencer, sempre com pelo menos mais um que a outra equipa. E por “mais um”, estou a falar em golos. Mas na terça-feira há um jogo muito importante. E se #EuVouLáEstar, tu também devias.

Para finalizar, uma palavra para a organização do jogo: Filas longuíssimas para entrar no interior do estádio, a entrada foi feita sem qualquer tipo de revista por parte da PSP ou da empresa de segurança (apenas verificaram os bilhetes) e a fila para o bar, para além de desorganizada, tornava-se ainda mais longa visto estar apenas uma – sim, uma – caixa em funcionamento (no bar onde fui, que servia uma bancada que tinha adeptos tanto do Tondela como do Sporting). Para não falar da saída do estádio, que já é conhecida por ser má (havendo várias formas de entrar no recinto, só há uma estrada para escoar trânsito). Demorei 80 minutos a sair da confusão de trânsito do estádio (50 minutos a esperar que acalmasse, em vez de estar preso no trânsito, e 30 minutos para sair do parque de estacionamento, sair da periferia do estádio, das vias de acesso – todas entupidas – e, finalmente, a usar os meus conhecimentos de Aveiro para ir pelo meio de uma zona residencial, sem dúvida a melhor forma de fugir à confusão).