Cinema/TV? É mais Evento/Não-Evento

A diferença entre cinema e TV está-se a esbater progressivamente. Neste momento, começo a ver isto mais como evento/não-evento. A prova disso mesmo? Três antestreias repletas de pessoas (no Arrábida Shopping, no Colombo e, pelo sétimo ano consecutivo, sala cheia no El Corte Inglés) e, numa escala mais pequena, um pub com dois dos seus espaços particularmente bem preenchidos. A seguir, ficaram para ouvir três idiotas a falar do que acabaram de ver. (Sendo que um desses idiotas sou eu.)

Game of Thrones está confirmada como evento. Aliás, anteontem vi várias pessoas, em Portugal, a perguntar onde podiam ver o episódio. Não “em que canal”, mas em que espaço físico. Quer seja por não terem o Syfy subscrito, quer seja por quererem ver com amigos, quer seja por não o quererem ver sozinhos. Está a acontecer algo que foi tão bem retratado em cenas de um episódio de Dharma e Greg sobre o final de Seinfeld,1 também ele um evento televisivo. Uma situação pouco usual por cá, mas que acontece bastante lá fora em situações pontuais. (Episódios especiais, finais de temporada, de série, etc.)

Se quiserem um sítio para ver os episódios, a Cervetoria vai acompanhar a temporada. E, de duas em duas semanas, estarei lá a gravar este podcast sobre a série. Apareçam!

Obrigado ao Edgar e à Liliana, e à Cervetoria. A Cabeça do Ned está de volta!


  1. S01E22, “Much Ado During Nothing” [YouTube

#GameOfThrones e #ACabeçaDoNed: é hoje

O dia vai ser giro. A partir das 2h da manhã, fugir aos spoilers até ver o episódio, que deverá ser mais à noite, ainda antes da estreia no Syfy.1 À tarde, antes de ir à antestreia,1 montar as coisas para a gravação. Até ver o episódio, fugir aos spoilers, o que implica desligar-me quase totalmente da internet durante umas valentes horas. No meio disso, estender a roupa, fazer uns telefonemas e ler mais um bocado do livro que ando a ler.

Tenho de agradecer aos que me deixam colar cartazes por aí (e ainda tenho alguns para distribuir): negócios locais à volta do sítio onde vou gravar os episódios. Sítio esse – a Cervetoria, em Lisboa – que também tem pessoas incansáveis a torcer para que as coisas corram bem, mas sem grandes pressões. (O que é fixe, porque assim sou apenas eu a pressionar-me.) E aos que deram apoio nesta fase de lançamento da temporada. Aos contactos dos contactos e amigos dos amigos.

Por isso: Se quiserem ver Game of Thrones em companhia de pessoas, com uma sala reservada exclusivamente para esse efeito e, depois, tiverem paciência para ouvir três tipos a falar sobre o episódio que acabou de dar, venham à Cervetoria (aqui) a partir das 22h e desfrutem. Se não o puderem fazer hoje, façam-no no dia 31 de Julho, ou no dia 14 de Agosto, ou no dia 28 de Agosto. A Cabeça do Ned vai gravar ao vivo em todas essas noites. Para os outros episódios, serão (em princípio) gravações em estúdio, como sempre, na Rádio Zero.

Se forem fãs portugueses de Game of Thrones que gostem de podcasts, espero que ouçam. Aqui, no Sapo, na Apple Podcasts, no Android, na Mixcloud, na SoundCloud ou noutras aplicações que vocês usem.


  1. Não é para me gabar – ok, talvez seja um pouco – mas vou à antestreia. 

Iron Fist T1: Não é totalmente má!

Parti para a mais recente série Marvel no Netflix (e a última antes do crossover The Defenders, dia 18 de Agosto) com várias referências de pessoas que já tinham visto a série e que apenas pararam de a criticar quando já estavam perto do insulto. Por isso, e já alguns meses depois da estreia, vi os 13 episódios com expectativas baaaaaaaixas.

E a verdade é que não desgostei. Não, não está ao nível da 2ª temporada de Daredevil ou da 1ª de Luke Cage (um pouco instáveis, mas com excelentes apontamentos – sendo um deles Mahershala Ali, que também passou por House of Cards e é recente vencedor de um Oscar), e muito menos ao nível da 1ª do Homem sem medo ou da 1ª de Jessica Jones – de longe, a melhor até agora. E também não está ao nível da mais recente colheita de Agents of S.H.I.E.L.D.. (A 4ª temporada teve um arco final fortíssimo e já superou, há muito, os soluços da primeira temporada.)

Iron Fist sofre porque a fasquia foi colocada a um nível muito alto pelas séries que vieram antes dela. Não, nenhum dos actores é particularmente carismático, tal como nenhum dos papéis lhes dá uma capacidade de se destacar naturalmente. Os vilões são pão-sem-sal. Nem sequer os maus da fita, que vão alternando à medida que a temporada avança. (Isso não é necessariamente mau.) O Danny Rand de Finn Jones (o Loras Tyrell de Game of Thrones) safa-se, mas tem momentos de puto mimado. Quando vi a Claire Temple, que tem ligado todas estas séries, respirei de alívio. Também não ajuda ter uma premissa (milionário com pai(s) morto(s) que regressa após x anos em parte incerta onde ganhou capacidades) semelhante à de Arrow, no ar com relativo sucesso há cinco anos. No entanto, nenhum dos episódios me causou enfado. (Como aconteceu em alguns capítulos de Luke Cage.) Se isso compensa o resto das falhas? Não. Mas gostei do ritmo de Iron Fist.

Venham esses Defenders, mas é.

#TaçaPortugalAllianz: Como não transmitir um jogo de futebol

(Hei-de escrever aqui sobre a minha experiência no Jamor. Primeira vez numa final da Taça. E ainda tenho de vos falar do Andebol! Mas hoje não vou falar sobre isso.)

Quem já foi ver jogos ao Jamor sabe que, quanto mais afastado do campo, melhor visão se tem do jogo. E o Jamor, para quem vê na TV, até tem bons ângulos e, de alguma forma, um ideal romântico.

No entanto, a RTP conseguiu estragar todo esse romantismo.

Nas últimas semanas, o Reino Unido tem sido assolado por atentados. Depois do atentado de Manchester, Ariana Grande decidiu juntar vários músicos e fazer um concerto para 50 mil pessoas, para angariar fundos para ajudar no apoio às vítimas (e às famílias das vítimas) do bombista. O concerto organizou-se relativamente depressa, bem como a transmissão televisiva global do mesmo: A Eurovisão (UER) comprou os direitos e distribuiu o sinal aos seus membros, onde está incluída a RTP. Acontece que a RTP1 já se tinha comprometido a transmitir a final da Taça de Portugal Feminina no mesmo dia (4 de Junho), com o jogo a começar às 17h15. Não há problema: a RTP não transmitiria o concerto em directo (afinal, ele também estava a ser transmitido no YouTube) e passava em diferido, a seguir ao filme do Cristiano Ronaldo.

Na noite de dia 3, um ataque terrorista em Londres torna-se na principal notícia e, obviamente, as prioridades dos noticiários mudaram. Não esperava era que as da programação também: a RTP1 decide colar-se à onda mediática e, durante a tarde, decide passar o concerto às 19h.

“Não há crise,” deve ter pensado o génio que fez isto, “afinal o jogo começa às 17h15, tem duas partes de 45 minutos e um intervalo de 15. Acaba às 19h e começamos logo com o concerto.” Quem tomou esta decisão não percebe nada de futebol e também não deve perceber que estava a abrir uma situação de discriminação sexual: Mesmo com o jogo a acabar às 19 horas em ponto, porque raio não iam transmitir a entrega da Taça em directo? Erro 1 – Discriminação face ao jogo da Taça masculina. 1 E, já agora, um jogo desta dimensão (mesmo considerando que o número de adeptos de futebol feminino é menor comparado com o masculino – estou apenas a falar da qualidade das equipas em campo) nunca, nunca iria ter apenas 45 minutos em cada parte e nunca iria acabar à hora “certa”. Para um jogo de futebol devem-se sempre contar duas horas, pelo menos. Erro 2 – Incapacidade de estabelecer horários. E era uma final. Ou seja, há sempre a hipótese de se estender para um prolongamento (2 x 15 minutos, mais pausas antes e entre as partes) e penalties (tempo variável). Uma final tem de ficar sempre com uma margem. Por isso é que começa às 17h15: Estende-se até às 20h, seja com pós-jogo ou prolongamento/penalties, come um bocado do Telejornal, se for preciso. Erro 3 – Incapacidade de esperar o inesperado. Resumidamente: tinha tudo para dar merda.

E não deu apenas merda: Deu merda de uma forma absolutamente espectacular. Como, como é que ninguém na régie da RTP não teve noção daquilo que estava a fazer? Vamos aos exemplos:

84′ de jogo: 19 horas. (Eu avisei.) O narrador do jogo, João Miguel Nunes, refere que se vai interromper a transmissão para passar para Manchester. Isso, RTP. ‘Bora interromper um jogo de futebol para mostrar qualquer outra coisa. A RTP1 decide… Fazer um split screen. Ecrã dividido em dois, barras azuis, de um lado o jogo e do outro o concerto. Som do concerto. Isto dura quatro minutos. Erro 4: Split screen.

O jogo termina empatado, 1-1, segue para prolongamento. (Eu avisei.) Na pausa entre o jogo e o prolongamento, a RTP1 decide ir para Manchester em ecrã inteiro. Algo impensável numa final masculina. (Quanto muito, seria publicidade.) A emissão retoma 5 segundos DEPOIS do pontapé de saída.

Aos 93′, alguém na régie tem uma ideia fantástica: “Meus caros, as redes sociais estão-se a passar connosco, temos de arranjar uma forma de termos as duas coisas no ar!” Resolvem fazer Picture-in-Picture: Um ecrã em cima de um ecrã. Jogo no ecrã principal, concerto num ecrã sobreposto. Som do jogo de futebol. O que faz todo o sentido: como todos sabemos, quem vê concertos gosta de ver a cenografia e os artistas e não quer saber da música. Excelente ideia, estúpidos!

Ora, este rectângulo fica numa posição complicada: Muito elevado em relação às bordas e muito, muito grande. Ora tapa a área na marcação de um canto…

… ora o Robbie Williams a cantar não-sei-o-quê-porque-não-havia-som-do-concerto tapa uma jogadora do Braga a limpar a bola junto à linha lateral…

… ora estava uma jogadora do Sporting a ser assistida e a ser tapada por 50 mil pessoas.

Erro 5: Picture-in-Picture. Como se o rectângulo não bastasse, e porque aquele espaço em baixo estava muito vazio, a RTP decide pôr MAIS UM RECTÂNGULO a dizer que aquilo era um directo de Manchester.

Nós sabemos. E o jogo fica mais tapado. Se eu quisesse ver tantos pop-ups, ia a um site de pornografia. Erro 5.1: Pop-ups. Sim, RTP1. Acabei de vos comparar a um qualquer site manhoso de pornografia. Segundos depois disto, a RTP1 tira o PiP e volta a Manchester em split screen, com som de Manchester. Dois minutos assim.

Livres perigosos? Situações de golo? Nah. Neste momento, a RTP1 estava-se a cagar. Erro 6: o operador de Serviço Público de Televisão estar-se a cagar para o que está a fazer. Começo a acreditar que foi obra do destino o golo da vitória do Sporting (aos 104′) não ter calhado num período em que a emissão estava reduzida a um rectângulo rodeado por azul e pelo Robbie Williams.

E se pensam que não pode piorar… A 2ª parte do prolongamento vai começar, toca a pôr split screen de Manchester.

Pontapé de saída da 2ª parte do prolongamento, concerto em ecrã inteiro na RTP1. 10 segundos depois lá se apercebem da merda que fizeram (desta, pelo menos) e volta ao split screen. Os primeiros 90 segundos são passados assim. Como é possível haver tanta incompetência?

Entretanto, e até ao fim do jogo, não fizeram mais nada. A não ser… transmitir as comemorações iniciais da equipa, ter o João Miguel Nunes a dizer “já voltamos” e passar para publicidade.

E para o Telejornal.

Onde abrem com notícias. E se mantêm. Não voltaram ao Jamor. E não transmitem a entrega da Taça em directo. (Só em diferido, às 20:24 – aliás, é a única referência que fazem ao jogo. O resumo e as entrevistas a intervenientes só passaram no 24 Horas, na RTP3 – mais de 4 horas depois do fim do jogo.

RTP, não vou estar com meias palavras: vocês f*deram isto, à grande. Restam-me várias questões:

  • Porquê a alteração súbita? Ânsia por audiências?
  • Porque não transmitir o concerto na RTP2? Estavam, essencialmente, com repetições. E as séries: Não era por se adiar um episódio uma semana que as 5 pessoas que as vêem atentamente ficavam chateadas.
  • Atendendo a que esta alteração para a transmissão do concerto foi feita hoje: porque não transmitir o concerto na RTP3? Os motivos seriam aceitáveis: seria algo que se enquadrava facilmente na actualidade noticiosa.
  • Porquê esta demonstração de amadorismo e de indecisão sobre o que transmitir? Porquê darem cabo da experiência de visualização de um jogo de futebol?
  • Porquê darem cabo da promoção do futebol feminino em Portugal? Transmitir um jogo desta forma, com interrupções, mostra (e confirma) que não levam isto a sério. Isto seria impensável se fosse na final da Liga dos Campeões ou na Taça masculina; porque raio é que a final da Taça Feminina é diferente? É porque são mulheres? É, não é? É porque são mulheres e vocês estão-se pouco marimbando para o futebol feminino? Vá, admitam lá. Fica-vos melhor admitir do que não dizerem nada, mesmo que a vossa admissão vos coloque numa posição de discriminação sexual.
  • A Federação Portuguesa de Futebol, vai fazer alguma coisa quanto a isto? Protestar? Algum tipo de resolução interna?

Isto vai seguir directamente para Jorge Wemans, provedor do telespectador da RTP. Não vos vou dizer para enviarem um e-mail para provedor.telespectador@rtp.pt. Ainda lhe entupimos a caixa de correio. A sério, não lhe enviem nenhum e-mail. Não lhe queremos estar a causar stress nos próximos dias.

Caso encontre alguma forma de as contactar, também seguirá para a direcção de informação (têm o “pelouro” do desporto) e para a direcção de programação – ou, como é conhecida a partir de hoje, direcção de indecisão.

Já agora: a RTP tem os direitos dos jogos da Selecção Nacional Feminina no Euro 2017. Se houver um mega-concerto de solidariedade à mesma hora de um dos jogos… estamos f*didos.


  1. Isto sem falar dos pré-jogo inexistentes, da promo que se limitava a mostrar faltas e da falta de promoção do jogo desde o momento em que foi dito que o iam transmitir e nem se deram ao trabalho de dizer quem o ia disputar. 

Calma lá com isso de “vamos ganhar a Eurovisão”

Subitamente, o Festival da Canção da Eurovisão (ESC) voltou a ficar popular. O que é que mandámos lá desta vez? Outra música escrita pelo Emanuel? Um cantor pimba que precisa de um jumpstart na carreira? Uma girlsband que já passou o seu auge? Cenas flashy, músicos em playback e coreografias maradas?

Não. Este ano, e para sermos diferentes, mandámos isto.

O alto Salvador Sobral, dono de uma voz particularmente suave, com uma música (escrita pela irmã, Luísa) que se destaca a dois níveis:

  • Cá, pela ternura e pela completa ausência de referências directas ou indirectas a Portugal. É uma balada, tem uma letra triste (mas esperançosa), mas não é nenhum fado, nem tem guitarras portuguesas, nem referências a mar, água ou descobrimentos, nem é nenhuma tentativa de ser pop de 2ª categoria (raramente uma música do Festival RTP da Canção – FRC – nos últimos 20 anos – talvez mais – conseguiu atingir um estatuto radio-worthy).
  • Lá fora, por ser completamente diferente daquilo que actualmente é considerado eurovisivo: glitter, semi-nudez, instrumentos em palco como meros adereços, e um factor freakshow que garante que as coisas fiquem na memória: há uns anos foi a Conchita e a sua barba (vencedora justíssima, já agora), este ano são as passadeiras rolantes da Suécia e o macaco Adriano da Itália.

A música deste ano resulta de uma nova abordagem que foi feita pela direcção da RTP ao FRC: Vamos pegar nos autores da “nova música portuguesa” e pedir-lhes músicas. Não necessariamente músicas eurovisivas, apenas boas músicas. O resultado, de uma forma geral, foi bastante melhor (a nível qualitativo – na minha opinião) do que em anos anteriores. E, curiosamente (e desde que se introduziu por cá o formato 50/50 na votação), esta é provavelmente a canção com o maior consenso geral do público desde… Sei lá, Chamar a Música? O Meu Coração Não Tem Cor?

Isto para dizer que sim, acompanho o ESC e o FRC. Não obsessivamente: Tento ver as galas (faço questão de insistir em ver a final), avalio as músicas de que gosto mais e menos e as performances. Normalmente não ouço as músicas antes de ver a performance na TV. Antes das galas, vão-me aparecendo rankings de casas de apostas nos feeds e sigo por aí quais são as favoritas e quais são as surpresas. Tento-me informar da história dos outros países (a powerhouse sueca, os anos de sucesso da Irlanda, as ajudas à Europa de Leste) para além da única história que nos interessa: em 52 anos e 48 participações, Portugal nunca venceu o ESC. É recorde. Já sinto os outros países a sentirem pena de nós.

Mas, este ano, as coisas até estão a correr bem. O Salvador não se está apenas a safar bem, está a ter uma excelente reacção do público. Foi o concorrente que mais buzz gerou no Facebook nas semi-finais.

Em Portugal, há duas coisas que toda a gente gosta de ver:

  • Um acidente;
  • Algo a correr extremamente bem.

Nesta segunda, há sempre um senão: a malta começa logo com “somos os maiores.” “Vamos ganhar, vamos dar cabo deles, e foi o Eder que os f*deu.” Com tanto entusiasmo, qualquer coisa que não seja a vitória vai ligar as vozes da desgraça. “Para que é que fazemos as coisas se não é para ganhar?” Ao menos não vão dizer “porque é que os mandámos lá, para fazerem figuras tristes?” – está muita gente feliz com a música.

Mas este ano, e com as coisas a correr bem, há (bem) mais gente a ver. A audiência deste ano foi quase o triplo da de 2015, data da nossa última participação (com isto). O que me faz perguntar: onde é que vocês estavam?

A sério, onde é que estavam quando mandámos isto, isto, isto, isto, isto, isto, isto ou isto? Rui Bandeira? Duas – não uma, duas! – músicas escritas pelo Emanuel? Nonstop já sem uma das participantes originais e quatro anos depois de realmente significarem alguma coisa em Portugal? Rita Guerra? 2B, a nossa tentativa (mais do que falhada) de tentarmos fazer algo eurovisivo? E, por muito que goste da música e que tenha votado nela e que a tenha apoiado: onde é que vocês estavam quando enviámos os Homens da Luta?

Ainda tivemos, pelo meio, dois exemplos com algum sucesso: Vânia Fernandes e Flor-de-Lis. Até não eram más, mas caíam naquele primeiro ponto de que falei antes: músicas muito, muito portuguesas (uma a falar de “mar”, outra com sonoridades típicas da música tradicional portuguesa – um pouco como Deolinda). Mas nenhuma teve este tipo de apoio, este tipo de buzz positivo, de ter um país a torcer para que dê.

Muita gente voltou a lembrar-se da existência dos dois festivais. Mérito para a nova abordagem da RTP e para a sorte que tivemos em ter esta música a vencer. E, amanhã, vai estar muita gente agarrada ao ecrã. Nos sites de apostas, a disputa pelo primeiro lugar está renhida. Nos últimos dias andámos a trocar lugares com a Itália. O entusiasmo é tanto que há imensos (demasiados?) OCSs a dizer “ESTAMOS EM PRIMEIRO!” sempre que um site de apostas nos põe em primeiro lugar. Acalmem-se lá.

Se acredito que dê para ganhar? Estou muito céptico. I mean, a Itália tem um tipo vestido de gorila. Mas não me lembro de alguma vez ter visto Portugal tão perto da vitória. Vamos ao top 10. Talvez top 6. Daí para cima… É-me difícil analisar.

Se ganharmos, vou fazer por ser um dos espectadores ao vivo no mega-espectáculo que organizarmos. Se não ganharmos, não quero ouvir as vozes da desgraça. Não somos uma merda. Valemos alguma coisa. Isso há-de ficar demonstrado. Evoluímos muito nos últimos 20 anos. Lembrem-se: Rui Bandeira.

(Foto: Thomas Hanses, eurovision.tv)

24: Legacy T1: Mais valia terem estado quietos

Eu sou um grande fã de 24. Foi a primeira série que segui a sério (estou ciente do pleonasmo, vamos continuar). Foi das primeiras séries que comprei em DVD (estou ciente de que foi um péssimo investimento). Entre 2001 e 2010 fizeram oito temporadas, cada uma com 24 episódios, cada um a cobrir uma hora do dia. O conceito é interessante, relativamente bem explorado (numas temporadas mais do que noutras) e Kiefer Sutherland marcou a história da ficção com o seu Jack Bauer.

No entanto, a série foi tendo alguns percalços na produção: quando a greve dos guionistas de 2007-08 aconteceu, fizeram um filme para ligar as temporadas 6 e 7 (24: Redemption), e adiaram esta temporada um ano, para exibirem todos os episódios de seguida. A seguir à 5ª temporada (a minha preferida), senti que se encostaram à sombra da bananeira. A série acabou em 2010, com o seu legado marcado. Mas depois fizeram mais episódios, com uma 9ª temporada, encurtada para 12 capítulos, chamada Live Another Day. Eu comi e gostei. Até tinha comido mais.

O que quero dizer com isto tudo? Bem, no ano passado anunciaram o regresso da série nos mesmos moldes de Live Another Day, com 12 episódios. Mas sem Jack Bauer. Praticamente sem personagens da série original. E eu vi, porque é 24, mesmo que não seja a 10ª temporada de 24 e seja a primeira de 24: Legacy. Mesmo que o relógio seja azul e não amarelo (os créditos também mudaram de cor). É tudo estranhamente familiar: o toque dos telefones da Cisco, o ritmo, o split screen. Mas isso não salva a série de ser apenas um grande e enorme meh. Os personagens são desinteressantes (a liderar este top está Teddy Sears, que nunca foi um actor extraordinário), a forma como falam é antiquada (Bucatinsky, estou a olhar para ti), os callbacks ao passado são ou demasiado directos e óbvios (no caso da prima de Edgar Stiles) ou extremamente subaproveitados (até parece que o regresso de Tony Almeida foi anunciado apenas para as pessoas verem a série). A única referência a Kiefer Sutherland (que está a fazer Designated Survivor, na ABC/Netflix) é um crédito de produtor executivo (tradução: $$$). As sequências de acção estão bem feitas, mas muito do que acontece é extremamente previsível. Mesmo assim, conseguiram fugir ao facilitismo de terem um infiltrado na CTU, Miranda Otto nem esteve assim tão mal e até me fizeram gostar do Jimmy Smits. Em suma, é a pior das 10 temporadas de 24, mas a melhor de 24: Legacy.

Puxando a famosa frase de uma das outras séries que a FOX insiste em não manter enterradas: eu quero acreditar que a história de Jack Bauer não acabou. Já a de Eric Carter pode ficar por aqui.

O Michael Bolton tem um especial do Dia dos Namorados

Lembram-se de, no post anterior, vos ter falado das pessoas que dizem “tens mesmo de ver isto”?

Antes, uma nota prévia: Voltei ao Netflix após cerca de um ano de ausência.1 Lá fui navegando pela biblioteca, com as sugestões a sugerir-me que visse muito do que já tinha visto (Arrow, The People vs. OJ, Modern Family, Daredevil… A lista continua), até que me cruzei com…

Michael Bolton’s Big, Sexy Valentine’s Day Special.

Não sabia que o Michael “friggin’” Bolton estava a preparar um destes. O poster era piroso como tudo, o que indicava que isto era bom. Aliás, não seria a primeira vez que Bolton faria um trabalho em comédia: Jack Sparrow, a música que gravou com os Lonely Island, tornou-se um clássico instantâneo e as suas participações nas últimas temporadas de Two and a Half Men foram das melhores coisas que a série teve (se bem que sempre à volta de mudanças à letra de When a Man Loves a Woman). Isto fora outros cameos não tão extraordinários. É o chamado good sport, sabe como a carreira dele é percepcionada e não se importa de brincar com isso. A prova? A premissa deste especial:

Quando o Pai Natal precisa de 75 000 novos bebés até ao Natal para dar todos os brinquedos, cabe a Michael Bolton inspirar o mundo a fazer amor numa maratona televisiva.

O especial é-nos trazido pelos já mencionados Lonely Island e pelos guionistas do Comedy Bang! Bang! (que já tinham trabalhado juntos quando Andy Samberg apresentou os Emmys, em 2015). O elenco é de luxo: malta do SNL (Maya Rudolph, Fred Armisen, Chris Parnell, Will Forte, Tim Robinson), outra malta mais ou menos conhecida (Eric André, Adam Scott, Michael Sheen, Sarah Silverman, Randall Park), Scott Auckerman (criador do podcast Comedy Bang! Bang!) e, claro, os próprios dos Lonely Island (Andy Samberg, Jorma Taccone, Akiva Schaffer). Fora cameos de malta conhecida (e do Sinbad).

Tudo isto dá algo divinal para qualquer fã dos Lonely Island (não sei quanto aos de Michael Bolton, nunca fui fã, nem quanto aos do Comedy Bang! Bang!, nunca ouvi o podcast e só vi 2/3 excertos do programa). Os momentos musicais de Bolton são o único momento em que dá para respirar e recuperar de tanto rir, mesmo que sejam interrompidos por algo extremamente ridículo.2

Possivelmente, este tipo de absurdo/ridículo era aquilo que muitos esperavam de A Very Murray Christmas, o especial de Natal de Bill Murray realizado por Sofia Coppola, que teve uma abordagem mais tradicional, menos absurda (absurdo que, por acaso, seria de esperar de Bill Murray – mas não de Sofia Coppola).

Sim, têm mesmo de ver isto. (Aqui.) Foi uma agradável surpresa do Netflix e da equipa criativa! Venham mais assim!


  1. Na altura fiz os 30 dias, não passei disso. Quando regresso, para meu espanto, reparo que me apagaram a conta. Resultado: novo registo, mais 30 dias de borla. (Yay!) E estamos a falar de uma empresa onde se pode falar livremente com os funcionários de conceitos que circulam o da pirataria e do empréstimo de contas. A meio de uma destas noites, tive de ligar para o call center deles (chamada gratuita, uma raridade nos dias que correm) e o português estava fechado. Fui redireccionado para o americano, fui atendido por um americano. Gajo cinco estrelas. Não me conseguiu resolver o problema e dava respostas de guião, mas, no meio disso, havia alguma liberdade de discurso, alguma compreensão de parte a parte e, quando lhe disse que pagaria a mensalidade mas sacava as séries na mesma para as poder ver offline (tenho um iPhone onde posso descarregar e um tablet Android/Windows em que não o consigo fazer, adivinhem onde é mais confortável ver conteúdos), ele disse que percebia perfeitamente e que, por eles, não havia problema. BRUTAL! 
  2. As músicas estão convenientemente disponíveis no novo álbum de Michael Bolton, Songs of Cinema. Álbum esse que ouvi enquanto escrevia este post. Porque não há maus momentos para ouvir Michael Bolton. 

Westworld T1: No Oeste fez-se uma boa série

Na era de peak TV (ou seja, de demasiadas boas séries), é difícil ver tudo no tempo (considerado) devido. Os relatos de “tens mesmo de ver esta!” multiplicam-se, normalmente com séries diferentes. Torna quase impossível um gajo conseguir largar o tempo que tinha destinado às séries para ver outras coisas, porque quando surge uma destas novas séries que “temos mesmo de ver”, vai-nos certamente ocupar o tempo. E, se a quisermos ver mas não o podemos fazer logo (seja lançada toda de uma vez ou semanalmente), vamos ter (ainda mais) trabalho a navegar por entre os spoilers.

Eis que entra Westworld. Elenco de luxo: Hopkins, Harris, Rachel Wood, Newton, WrightMardsen nos nomes de cartaz, Babett Knudsen, Woodward, Simpson, Santoro e o outro irmão Hemsworth (não o Liam, o outro – sim, existe outro) como menos conhecidos mas tão (ou mais) importantes. Jonathan Nolan e Lisa Joy trabalharam muito bem estes mundos com a ajuda de J.J. Abrams (Bad Robot!) e do muito dinheirinho que a HBO e a Warner esturraram nisto (fala-se em $100M). Mas tudo começou no imaginário do enorme Michael Crichton (ER, Jurassic Park – a mesma lógica do “parque-temático-que-dá-para-o-torto”), que escreveu e realizou o filme de 1973 com o mesmo nome (e que eu ainda não vi).

E valeu a pena. Mesmo com o conceito já usado recorrentemente na ficção de TV/Cinema (três dessas vezes por Michael Crichton), Westworld teve uma 1ª temporada bem forte. Não apanhei praticamente nenhuma das reviravoltas antes do momento em que as devia ter apanhado, embora isso tenha acontecido com outros.1 Thandie Newton imperial (especialmente no início da 2ª metade da temporada), Jeffrey Wright soberbo. Cenários épicos. Efeitos visuais em que o CGI mal se nota, ou não se nota de todo (o que mostra também como o dinheiro foi bem rentabilizado).2 Muita, muita nudez. (“It’s not porn, it’s HBO.”)

Depois deste final, fico muito expectante para a 2ª temporada, que ainda deve demorar para chegar (fala-se em 2018). As expectativas vão ser bastante elevadas, e até acaba por ser bom que chegue apenas daqui a mais de um ano – mais tempo para a preparação. Mas, para esta, conto já vê-la no chamado “ritmo normal”.

Mesmo assim, continua a haver demasiada coisa boa para ver. E não, não quero mais sugestões!


  1. Até admito que sim, talvez a série possa ter facilitado um pouco; eu vi a série quase toda seguida, outros viram-na semanalmente, com todo o espaço que existe entre episódios para teorizar e procurar explicações – algo que eu não fiz, porque tinha de fugir aos spoilers
  2. Por vezes, a fazer lembrar os do filme Ex Machina. 

#ManuelBreaksTheInternet: Portugal em Festa

Parece que o Portugal em Festa foi cancelado. Rejubilemos por isso (yey), mas este post não é para rejubilar por isso. É porque aconteceu algo estranho.

Reparem nos números. Completamente fora do comum.

E isto no dia de aniversário do Twitter. Depois de um tweet em que dizia “Feeling ignored.” (Oh, a ironia.)

#ManuelBreaksTheInternet
(Valores dos primeiros 60 minutos após a publicação. Neste momento já ultrapassou as 43000 impressões. A taxa de engagement? Na altura do screenshot era de 7,66%.)

E depois dizem-me: “És trend.”

Gotta #LoveTwitter. Mas…

COMO É QUE ACONTECEU SE NEM SEQUER VEJO O PORTUGAL EM FESTA?

Não faço puto ideia. Por um lado, não há hashtags. Por outro, o grande Bruno Nunes (que já é um pro destas andanças agora e vai ser ainda mais pro daqui a uns anos) deu-me algumas justificações:

Trocadilho do nome do programa + notícia aguardada por grande parte da população portuguesa + horário do tweet (muita gente já por casa) + boa base de seguidores que tens.

Vamos por partes:

  • O trocadilho: Pensado (obviamente).
  • Notícia aguardada: Considerando a população jovem que habita no Twitter + a população menos jovem (calma, tipo eu) que preferia (e prefere) as tardes de filmes/abomina música pimba, ok.
  • Horário do tweet: 21h37. Perfeito.
  • Boa base de seguidores: 3100. Não me queixo (sem sobranceria).

Já agora, no Facebook também está a correr bem (107 reacções, 6 comentários e uma partilha à hora de publicação deste post). No entanto, chego a uma conclusão:

Foi sorte.

Foi mera sorte. Os factores contribuiram, sim… Mas, no final, acho que acabou por ser sorte. Não irei conseguir replicar isto tão cedo. É viral puro: Não foi feito para isso e, no entanto, aconteceu. Correu bem.

Uma nota final

O Twitter é uma ferramenta fantástica. No entanto, as constantes alterações que têm sido feitas em favor do capital e que o tornam cada vez mais igual ao Facebook têm falhado em captar utilizadores. Tal como o Pedro Guerreiro remata na sua crónica no Público, “no dia em que o Twitter se tornar no Facebook, que argumento poderá demover os seus utilizadores de migrarem para a rede rival?”

É essa a principal diferença destes 10 anos. Eu vejo o Twitter como um local para treinar a brevidade das mensagens, 140 caracteres e pronto. Menos se tiver de pôr um link, uma hashtag ou uma imagem (ou várias). 10000 caracteres? Fica igual. Tem de se tornar apelativo aos anunciantes? É claro que tem. Mas se perder aquilo que o caracteriza, será que não vai perder público? Se perder público, fará sentido ir lá vender produtos? Era bom que eles (em San Francisco) pensassem nisto.

O Twitter mudou (ou reformatou, vá) a minha vida nos últimos quase oito anos. Conheci dezenas de pessoas graças ao Twitter, a maior parte delas fantásticas. Fui a festas, a jantares, a noitadas e a casamentos. Vi aviões a amarar, hambúrgueres a serem entregues, acidentes de comboio (não foi grave, descansem), verdadeiros e falsos golpes de Estado, noites de sit-down comedy, eventos, muito humor todos os dias. Visto a camisola (literalmente, e tenho duas) com muito orgulho. Não quero que o Twitter seja um Facebook, para isso já temos um – o Facebook. Quero que o Twitter se mantenha nos seus 140 caracteres, com foco no tempo real. Só isso. Basta. Podem aparecer tweets patrocinados, desde que não interfiram. Mas não me aumentem o limite de caracteres nem me reorganizem a timeline. Para isso já serve o Facebook.

Duas séries (I): Galavant e Terapia

Vamos lá tentar fazer uma coisa destas regularmente, shall we? Terei duas séries sempre que escrever aqui. O nome indica isso mesmo. Começo com Galavant e Terapia.

Galavant (ABC)

Regresso em força da comédia musical de Dan Fogleman, depois da renovação surpresa da temporada passada. Em cinco semanas se despacharam 10 episódios (dois em cada domingo de Janeiro), se bem que acredito ser a melhor forma de transmitir a série (combinação ritmo/duração/utilização das músicas). A música (de Alan Menken, o tipo que nos deu as bandas sonoras de The Little Mermaid, Beauty and the Beast, Aladdin e Pocahontas e que ganhou 8 Óscares à pala disso) continua bem presente, bem como as letras subversivas (e carregadinhas de meta-piadas) de Glenn Slater, se bem que por vezes algo preguiçosas (poucas palavras. Ou seja: Se gostaram da temporada anterior, continuem a ver. Voltamos a ter actores convidados de luxo (Hugh Bonneville regressa a este mundo, Kylie Minogue também aparece, “Weird Al” Yankovic volta a fazer uma perninha), músicas gozonas, um elenco competente (especial destaque para Timothy Odmunson pela performance e para Karen David pela cantoria e… outros motivos) e muito humor. Aproveitem o que podem, porque as audiências estão uma m*rda.

Se nunca a viram, não sabem o que perdem. Criada por Dan Fogleman, o homem que nos trouxe a mal-amada The Neighbors e escreveu os filmes Tangled e Crazy, Stupid, Love., Galavant passa-se num reino fictício e segue as aventuras do herói epónimo que tenta reclamar o seu final feliz (“a fairytale cliché”), tudo num ambiente medieval e musical. Aliás, nada me tira da cabeça que o Alan Menken está a fazer esta série para ganhar um Emmy, o único prémio que lhe falta para ter conquistado todos os majors (EGOT: Emmy, Grammy, Oscar e Tony).

Se viram (e gostaram) alguma coisa desta lista é provável que gostem de Galavant:

  • Community — meta-humor, e o Magnitude (Luke Youngblood, POP POP!) participa nela);
  • The Neighbors — mesmo criador, também tem meta-humor, também teve azar com as audiências e deu a Alan Menkan a sua primeira nomeação a um Emmy com o seu primeiro episódio musical;
  • Robin Hood: Men In Tights (Herói em Collants) — O ambiente da série é semelhante ao do clássico de Mel Brooks.
  • Qualquer coisa com o Vinnie Jones e gostaram dele: Vinnie fuckin’ Jones! E canta! E não se safa nada mal!

Terapia (RTP)

Virgílio Castelo – actual consultor de ficção da RTP1 – protagoniza a adaptação portuguesa do formato israelita BeTipul (provavelmente a versão mais conhecida cá será a americana In Treatment, da HBO, protagonizada por Gabriel Byrne). Já tinha visto alguns episódios da versão americana e achei o conceito interessante: Uma série diária, quase sempre um diálogo a dois, intenso (como uma consulta de psicoterapia pode ser).

Em Terapia (vêem o que fiz aqui?), Virgílio Castelo está muito bem no papel de Mário. Conseguiu apanhar o olhar de um psicoterapeuta (infelizmente. De todos os pacientes tenho que dar um destaque óbvio a Nuno Lopes e a Catarina Rebelo. O primeiro por mostrar mais uma vez que é um dos melhores actores portugueses no activo. O que dizer sobre Nuno Lopes que já não tenha sido dito? É sempre fantástico vê-lo no ecrã. Quanto a Catarina Rebelo, a grande revelação (pelo menos para mim, que me recuso a ver novelas). Um papel que não é de fácil interpretação. A miúda, episódio a episódio, reforça o motivo de aposta. Nota ainda para Leonor Silveira, naquele que é (aparentemente) o seu primeiro trabalho em televisão em mais de 25 anos de carreira. Excelente escolha para o papel (se bem que, por vezes, não ache que a entrega do texto seja tão boa quanto podia ser).

No entanto, nem tudo são rosas: Por muito que nos tentem impor, não há o mínimo de química entre Laura (uma Soraia Chaves sempre sedutora e a interpretar muito bem o papel que lhe é dado) e Mário. É que simplesmente não há. Fico com arrepios quando vejo aquelas cenas, mas não são dos bons. É cringeworthy. Parem. Vá lá. Dói muito ver essas cenas. Fico com vontade de cortar os pulsos (figurativamente). Outra coisa que dói? A utilização da música, especialmente quando é dito algo importante. Dizem o nome de alguém novo? “Ta-na-na-naaaan…” Alguém dá um chapadão? “Ta-na-na-naaaan…” Está um tipo dos CTT Expresso à porta com uma encomenda? “Ta-na-na-naaaan…” Às vezes não é assim tão importante ter estes momentos. Aliás, eu passava muito bem um episódio só com os diálogos entre os personagens e foley.

Apesar deste parágrafo de queixas, Terapia é uma série bem conseguida e a demonstração de que “sim, é possível” fazer outra coisa em Portugal que não novelas e ter qualidade no guião (tudo bem que é estrangeiro, mas tem qualidade).

P.S.: Nota positiva ainda para a estratégia de distribuição da RTP: Os episódios passam na emissão linear da RTP1 só depois das 22h, mas estão disponíveis para serem vistos no RTP Play a partir da hora de almoço. Excelente ideia.

Quando é que isto volta? Não sei. Um dia. Quando me apetecer.