Rescaldo: 8½ Festa do Cinema Italiano (2016)

Aconteceu mais um 8½ Festa do Cinema Italiano (nota: “um”, não “uma”, porque o nome do festival inclui o 8½ no título), desta vez a 9ª edição do evento/certame/o que lhe queiram chamar. Salas cheias, um total de espectadores superior ao da edição passada, muitos Fiat 500 (de todos os tamanhos!), (pelo menos) um galã, um belo de um copo cheio de Aperol Spritz e umas valentes dezenas de sessões.

Apesar da multiplicidade de sessões e de me ter sido dado acesso a todas elas, por questões de agenda (mas também por opção própria) acabei por ir a apenas seis. Foram menos que no ano passado, mas com duas considerações extra: No ano passado 5 das 7 sessões a que fui eram da série “Gomorra” (actualmente em repetição aos Domingos na RTP2 – a 2ª temporada vem a caminho). Adicionalmente, as outras duas eram “O Bom, o Mau e o Vilão” e “Cinema Paraíso”. (Lembram-se quando a Sala Manoel de Oliveira ficou inundada? Foi depois disso.) Por isso, este ano, acabei por ver mais filmes.

Antes de continuar, um especial agradecimento à organização do 8½ Festa do Cinema Italiano. Uma equipa prestável, sempre a tentar garantir que a minha experiência (bem como a dos milhares de espectadores presentes em todas as sessões) fosse inesquecível.

(1963)

8½

Não sei o que se fumava em 1963, mas parece ser bom.

O interessante de ver pela primeira vez estes filmes uma catrefada de anos após a sua estreia é começar a fazer uma lista na nossa cabeça de tudo o que tenhamos visto que possa ter sido influenciado por isto. E a lista é longa. Depois, penso nos personagens e na confusão que se vai criando (na cena final já não se consegue distinguir a “realidade” da “ficção”) e pergunto até que ponto é que o personagem de Mastroianni não é o próprio Fellini, não tanto como as personificações de Woody Allen nos seus filmes (por vezes o próprio Allen). Absurdo, algo ilógico e absolutamente cativante.

(Sim, usei a palavra “cartefada”).

Se não o apanharam, ainda o podem ver nos cinemas UCI do El Corte Inglés (Lisboa) e Arrábida 20 (Gaia, Porto).

Suburra (2016)

Suburra
Foto: Emanuela Scarpa

Fui para o filme com algo na cabeça: É Gomorra (a série), mas em Roma. E essa expectativa foi cumprida, mas ficou um amargo de boca no final. Não me levem a mal, mas esperava um pouco mais. Obviamente não vou comparar o desenvolvimento dos personagens entre cada uma das obras, seria injusto para ambas (Gomorra é uma série, tem muito mais horas para o fazer, e é algo que Suburra também fará em breve, quando se estrear em formato série no Netflix). Suburra deu para matar saudades do estilo visual e narrativo de Gomorra enquanto não chega a 2ª temporada, no entanto não chega aos calcanhares da série no que toca à violência mostrada no ecrã. Também senti que o argumento não arriscou tanto como podia (e, possivelmente, devia). Por último, algo que não fez sentido absolutamente nenhum: A ligação ao Vaticano. O filme passa-se nos dias em que Bento XVI toma a decisão de abdicar do cargo (decisão que seria anunciada publicamente apenas em Fevereiro de 2013), o filme vai mostrando alguns momentos e… Pronto. É isso. Há uma ligação à história principal, mas é extremamente ténue (espero que seja explorada na versão televisiva, mas não vejo isso a acontecer). Em suma: É bom, mas podia ser melhor.

Suburra tem a sua estreia comercial no dia 21 de Abril em Lisboa e no Porto.

⭐️⭐️⭐️½

La Vita È Bella (1997)

A Vida É Bela

Não estava previsto inicialmente, mas para não ficar com pena de não poder ir ver o Padrinho no CinePop (irei falar sobre isso noutro post), acabei por o ir rever. O que é que posso dizer sobre A Vida É Bela que já não tenha sido dito? O cume da carreira de Roberto Begnini? O filme mais alegre sobre a II Guerra Mundial? É um daqueles filmes que é sempre bom rever, que nos recorda que, mesmo nas circunstâncias mais adversas, existe sempre algo bom na Humanidade (provavelmente isto também já foi dito). Ah: De cada vez que vejo o filme fico a gostar mais da Nicoletta Braschi.

Lo Chiamavano Jeeg Robot (2015)

lo chiamavano jeeg robot
Foto: Emanuela Scarpa

A grande surpresa da 9ª edição do 8½ Festa do Cinema Italiano, por vários motivos.

Primeiro, é um filme de super-heróis. Um filme de super-heróis da nova geração de filmes de super-heróis, naquele estilo mais cru a que fomos habituados em Daredevil e Jessica Jones (as séries da Marvel no Netflix). Sobre a história não há muito a dizer, é a clássica origin story de um super-herói (personagem está na m*rda, acontece-lhe alguma coisa que envolve radiação ou mutação genérica, personagem ganha super-poderes, há um mauzão e… para o resto, vejam o filme). Portanto, quando a história não é necessariamente original, o foco vira-se para a execução.

Aí, Claudio Santamaria (o galã de que falei no início do post; no final da sessão as meninas faziam fila para tirar foto com ele) consegue-nos vender o papel a 100%, a sua transição de pária da sociedade para herói amado pelo público. E, enquanto que a interpretação um pouco tresloucada de Ilenia Pastorelli me lembra a de Laurence Leboeuf em Turbo Kid (apesar de serem personagens completamente diferentes), as parecenças físicas de Luca Marinelli com Tom Hiddlestone (o Loki do Marvel Cinematic Universe) contribuem para o carisma de vilão que transmite – um patrão da máfia ambicioso que não tem medo de pôr as mãos na massa, ou [spoiler] rebentar com a cabeça de um colaborador com um iPhone [fim de spoiler].

Nota ainda para os efeitos visuais: Com um orçamento bem menor que as grandes produções de Hollywood consegue ter visuais mais credíveis que muitas grandes produções que usam “quilos” de efeitos CGI. No geral, uma realização extremamente competente de Gabriele Mainetti na sua primeira longa-metragem.

Lo Chiamavano Jeeg Robot é a prova absoluta de que não é preciso estar num país anglófono para se fazer um excelente filme de super-heróis, bem como a de que o cinema dramático europeu não se resume a um triste espectáculo de pretensiosismo intelectual (aliás, dos seis filmes que vi, o que está mais próximo disso é mesmo o 8½, que é apenas louco). Na sessão de Q&A que se seguiu ao filme, Claudio Santamaria confirmou que há a possibilidade de uma sequela.

Segundo motivo da surpresa: Foi o Vencedor Absoluto do 8½ FCI, ao não apenas ganhar o prémio do Público mas também o prémio do Júri. Um filme de super-heróis a vencer um festival de cinema europeu. E esta, hein?

⭐️⭐️⭐️⭐️½

Brutti, Sporchi e Cattivi (1976)

Feios, Porcos e Maus

Para um viciado em séries de TV que nunca tinha visto Feios, Porcos e Maus, é impossível não fazer uma comparação com Shameless. Mas a miséria desta família é pior, tanto na conta bancária como nas personalidades. Filme recheado de piadas fáceis. Não há nada de muito assinalável a nenhum nível neste filme. O que é que aprendemos com isto? Nada, para além do que já tinha aprendido com reality-shows: Gostamos sempre de ver a desgraça alheia.

Quo Vado? (2016)

Quo Vado?

Na sessão que encerrou este 8½ Festa do Cinema Italiano e que coroou Lo Chiamavano Jeeg Robot como o grande (e surpreendente) vencedor desta edição, somos brindados com esta pérola. Um filme que, pelo material promocional, tinha tudo para correr mal: Material gráfico manhoso e um trailer curto (mas divertido) e que não conta muito da história. Os resultados de box office em Itália eram extremamente bons (arrumou Star Wars: O Despertar da Força a um canto depois de conseguir o triplo do que este obteve). Os do Pátio das Cantigas (o triste e desnecessário remake de Leonel Vieira, que já nos trouxe clássicos de culto como A Bomba, e que é o filme mais visto de sempre nas salas portuguesas) também. Vinha etiquetado por muitos como “popularucho”.

Tenho notícias: Os italianos fazem melhores filmes popularuchos que nós. O filme é todo ele uma sátira extrapolada ao estereótipo do funcionário público (que se aplica tanto em Itália como em Portugal). Tem piada, talvez uma ou duas piadas se tenham perdido na tradução (com naturalidade). Não é um filme revolucionário (nem o tenta ser), não é uma comédia que vai ficar para a história (nem o tenta ser). É mais uma comédia boa para ver em família, a um domingo à tarde. Está algures no meio entre “tens de ver” e “não há mais nada para ver”. Vão-se divertir, mas não muito mais que isso.

E sim, é melhor que o Pátio das Cantigas.

Vai ter estreia comercial em Portugal

⭐️⭐️⭐️

O 8½ Festa do Cinema Italiano continuará em tournée por Portugal, indo a várias cidades de norte a sul do país (Aveiro: 8 a 10 de Maio!), seguindo também para Angola, Moçambique e para o Brasil.

Em estágio: 8½ Festa do Cinema Italiano (2016)

A 9ª edição do 8½ Festa do Cinema Italiano começou ontem (30 de Março), estende-se até 7 de Abril e, para já, são só 5 os filmes que definitivamente vou ver, mas podem ser mais.  (UCI do El Corte Inglés, consultar horários aqui), Suburra (Sábado, 2, 21h30), Lo Chiamavano Jeeg Robot (Domingo, 3, 19h), Feios, Porcos e Maus (Domingo, 3, 21h30) e Quo Vado? (Quinta, 7, 21h30). Ainda estou em dúvida se vou ou não ver (novamente) A Vida É Bela (pela primeira vez) num ecrã de cinema (Domingo, 3, 16h30).

Vou tentar escrever pequenas notas sobre os filmes que vou ver. Têm sugestões para mais filmes? E, se estiverem por lá, avisem! 😉

Sharknado 3: Oh Hell No! (2015)

Sharknado_hero_ian_car

Ainda pior. Ainda melhor. Há spoilers, cuidado.

Como explicar este paradoxo? Simples. Os filmes do Syfy sempre foram conhecidos por serem francamente maus. Possivelmente terríveis. No entanto, o absurdo acaba por convidar a uma experiência colectiva que pode ser das melhores experiências que poderão ter numa sala de cinema (muitas vezes, o álcool ajuda). E Sharknado 3 não foi excepção. Num terceiro tomo que teve pormenores francamente bons (SHARKS! IN SPACE!) e nos quais se começa a notar alguma preocupação (os créditos iniciais são um mimo visual muito ao estilo de um blockbuster de Hollywood, nota-se um guião ligeiramente mais limpo – ou seja, sem algumas frases absolutamente desnecessárias), Anthony C. Ferrante não se esqueceu do que tornou o filme um sucesso (essencialmente, a cena final do primeiro filme, em que Fin Shepard entra por um tubarão dentro com uma moto-serra e resgata uma das raparigas com mamas do filme) e, tal como em Sharknado 2, potenciou o absurdo a um nível inenarrável. Ou aparentemente não, visto que já conseguiram fazer três filmes.

Algumas notas soltas:

  • Aquilo que rodeia Fin Shepard, personagem de Ian Ziering, está cada vez mais parecido com Johnny, personagem de Tommy Wiseau no péssimo-excelente The Room: Todos o adoram, ele é o maior, é uma excelente pessoa.
  • Mark Cuban, como actor, é um excelente empresário. Nós sabemos disso, ele sabe disso. E este tipo de filme é o único em que Cuban pode ser outra coisa que não ele próprio e ninguém se importa com isso.
  • As mamas da Cassie Scerbo estão de volta. E a Cassie Scerbo também. Cassie Scerbo que, como actriz, é uma excelente modelo.
  • Depois de Fin, Gil. A próxima nova personagem com nome da anatomia de um peixe será chamada de Teeth. Já viram, uma rapariga chamada Teeth? Era gozada para toda a vida.
  • Post Traumatic Shark Disorder.
  • Frankie Muniz a morrer como o Cavaleiro Negro dos Monty Python.
  • Pelo menos uma referência aos Marretas, uma referência ao Armageddon, George R.R. Martin a sofrer aquilo que, para muitos, já merecia.
  • Moto-serra laser. É preciso dizer mais alguma coisa?

Há uns dias li um excerto de um texto do Screen Crush no blog do meu comparsa (e não-familiar) Carlos Reis sobre uma desculpa que se dá em relação a filmes parvos: “Desliga o cérebro e desfruta do filme”, diz-se. Tal como ele (e como o autor do texto), ão posso concordar com isto. Sim, Sharknado é um filme estúpido. É um filme que, supostamente, é feito para não exigir grande esforço mental. No entanto, exige. Exige de nós, telespectadores, um ENORME esforço de suspensão da descrença e de acreditar que a ciência mostrada no filme (um tornado com tubarões causado pelo aquecimento global, tubarões a conseguir sobreviver nas nuvens, “bio-meteorologia”, tubarões – SABE-SE LÁ COMO! – a sobreviver no espaço) existe… Naquele mundinho. No universo criativo de Sharknado, desde que tenha tubarões e alterações climatéricas, Sharknado 3 provou que tudo é possível. E o que nos capacita para fazer essa suspensão da descrença e admirar os novos níveis de parvoíce a que o trabalho de Anthony C. Ferrante chega é, precisamente, o nosso cérebro.

Expectativas para o Sharknado 4? Que a April sobreviva (Sharknado sem Tara Reid não é a mesma coisa e Tara Reid sem Sharknado não é a mesma coisa – até porque a rapariga tem de sobreviver, não é?) e esperar uma justificação “científica”. E que a malta do Today Show sobreviva. Sim, eles foram atacados no final e provavelmente morreram. Mas era fixe se sobrevivessem a todos os filmes. Era um running gag com piada.

Para acabar, uma referência ao passado recente: Comecei um podcast chamado O Que Quer Que Isto Seja (link, iTunes), e no primeiro episódio deram-me a hipótese de conversar com Ian Ziering. Podem ouvi-lo aqui (e obrigado ao Syfy Portugal pela oportunidade).

NOTA: Não vou dar estrelas. Vou usar emojis de uma forma relativamente arbitrária. Porque se der estrelas vocês só ligam às estrelas. E isso não funciona (excepto no Público). Hoje há beterrabas, sendo que o valor que é dado às beterrabas é impossível de converter para estrelas, bolachas, sapos ou outros emojis. Ou seja: Leiam a porra do texto.

🍆🍆🍆🍆

Algumas considerações sobre o 8 1/2 Festa do Cinema Italiano

  • A cópia restaurada do Cinema Paraíso foi, provavelmente, dos melhores restauros digitais que vi na minha vida. O que não deixa de ser irónico, dada a temática do filme.
  • Ao contrário do Cinema Paraíso, que vi pela 981240912ª 1 vez, finalmente vi O Bom, o Mau e o Vilão. E saí de barriga cheia. Grande filme. Este Eastwood é o maior. Este é o Clint Eastwood de que já tinha ouvido falar, mas que nunca tinha visto.
  • Numa espécie de circuito alternativo, assisti às 5 sessões de Gomorra (série que há-de estrear um dia destes na RTP2). 12 episódios com suspense que nos faz sair da sala a tentar relaxar os músculos depois de uma contracção total do corpo durante os 50 minutos de cada capítulo. Se não foram dos cerca de 15 resistentes que aguentaram a série toda (na primeira sessão estavam umas 100 pessoas2), parem de ver a novela e peguem nesta série. É de pôr os nervos em franja.
  • Uma palavra para a organização: Sempre que me cruzava com algum deles, foram sempre muito acessíveis e simpáticos. Merecem o sucesso que tiveram (a Festa bateu recordes de audiência nesta sua 8ª edição), apesar de alguns atrasos sempre comuns neste tipo de eventos.

  1. Enésima, vá. 
  2. Ficaram com medo, por isso é que não viram o resto.