O Michael Bolton tem um especial do Dia dos Namorados

Lembram-se de, no post anterior, vos ter falado das pessoas que dizem “tens mesmo de ver isto”?

Antes, uma nota prévia: Voltei ao Netflix após cerca de um ano de ausência.1 Lá fui navegando pela biblioteca, com as sugestões a sugerir-me que visse muito do que já tinha visto (Arrow, The People vs. OJ, Modern Family, Daredevil… A lista continua), até que me cruzei com…

Michael Bolton’s Big, Sexy Valentine’s Day Special.

Não sabia que o Michael “friggin’” Bolton estava a preparar um destes. O poster era piroso como tudo, o que indicava que isto era bom. Aliás, não seria a primeira vez que Bolton faria um trabalho em comédia: Jack Sparrow, a música que gravou com os Lonely Island, tornou-se um clássico instantâneo e as suas participações nas últimas temporadas de Two and a Half Men foram das melhores coisas que a série teve (se bem que sempre à volta de mudanças à letra de When a Man Loves a Woman). Isto fora outros cameos não tão extraordinários. É o chamado good sport, sabe como a carreira dele é percepcionada e não se importa de brincar com isso. A prova? A premissa deste especial:

Quando o Pai Natal precisa de 75 000 novos bebés até ao Natal para dar todos os brinquedos, cabe a Michael Bolton inspirar o mundo a fazer amor numa maratona televisiva.

O especial é-nos trazido pelos já mencionados Lonely Island e pelos guionistas do Comedy Bang! Bang! (que já tinham trabalhado juntos quando Andy Samberg apresentou os Emmys, em 2015). O elenco é de luxo: malta do SNL (Maya Rudolph, Fred Armisen, Chris Parnell, Will Forte, Tim Robinson), outra malta mais ou menos conhecida (Eric André, Adam Scott, Michael Sheen, Sarah Silverman, Randall Park), Scott Auckerman (criador do podcast Comedy Bang! Bang!) e, claro, os próprios dos Lonely Island (Andy Samberg, Jorma Taccone, Akiva Schaffer). Fora cameos de malta conhecida (e do Sinbad).

Tudo isto dá algo divinal para qualquer fã dos Lonely Island (não sei quanto aos de Michael Bolton, nunca fui fã, nem quanto aos do Comedy Bang! Bang!, nunca ouvi o podcast e só vi 2/3 excertos do programa). Os momentos musicais de Bolton são o único momento em que dá para respirar e recuperar de tanto rir, mesmo que sejam interrompidos por algo extremamente ridículo.2

Possivelmente, este tipo de absurdo/ridículo era aquilo que muitos esperavam de A Very Murray Christmas, o especial de Natal de Bill Murray realizado por Sofia Coppola, que teve uma abordagem mais tradicional, menos absurda (absurdo que, por acaso, seria de esperar de Bill Murray – mas não de Sofia Coppola).

Sim, têm mesmo de ver isto. (Aqui.) Foi uma agradável surpresa do Netflix e da equipa criativa! Venham mais assim!


  1. Na altura fiz os 30 dias, não passei disso. Quando regresso, para meu espanto, reparo que me apagaram a conta. Resultado: novo registo, mais 30 dias de borla. (Yay!) E estamos a falar de uma empresa onde se pode falar livremente com os funcionários de conceitos que circulam o da pirataria e do empréstimo de contas. A meio de uma destas noites, tive de ligar para o call center deles (chamada gratuita, uma raridade nos dias que correm) e o português estava fechado. Fui redireccionado para o americano, fui atendido por um americano. Gajo cinco estrelas. Não me conseguiu resolver o problema e dava respostas de guião, mas, no meio disso, havia alguma liberdade de discurso, alguma compreensão de parte a parte e, quando lhe disse que pagaria a mensalidade mas sacava as séries na mesma para as poder ver offline (tenho um iPhone onde posso descarregar e um tablet Android/Windows em que não o consigo fazer, adivinhem onde é mais confortável ver conteúdos), ele disse que percebia perfeitamente e que, por eles, não havia problema. BRUTAL! 
  2. As músicas estão convenientemente disponíveis no novo álbum de Michael Bolton, Songs of Cinema. Álbum esse que ouvi enquanto escrevia este post. Porque não há maus momentos para ouvir Michael Bolton. 

Westworld T1: No Oeste fez-se uma boa série

Na era de peak TV (ou seja, de demasiadas boas séries), é difícil ver tudo no tempo (considerado) devido. Os relatos de “tens mesmo de ver esta!” multiplicam-se, normalmente com séries diferentes. Torna quase impossível um gajo conseguir largar o tempo que tinha destinado às séries para ver outras coisas, porque quando surge uma destas novas séries que “temos mesmo de ver”, vai-nos certamente ocupar o tempo. E, se a quisermos ver mas não o podemos fazer logo (seja lançada toda de uma vez ou semanalmente), vamos ter (ainda mais) trabalho a navegar por entre os spoilers.

Eis que entra Westworld. Elenco de luxo: Hopkins, Harris, Rachel Wood, Newton, WrightMardsen nos nomes de cartaz, Babett Knudsen, Woodward, Simpson, Santoro e o outro irmão Hemsworth (não o Liam, o outro – sim, existe outro) como menos conhecidos mas tão (ou mais) importantes. Jonathan Nolan e Lisa Joy trabalharam muito bem estes mundos com a ajuda de J.J. Abrams (Bad Robot!) e do muito dinheirinho que a HBO e a Warner esturraram nisto (fala-se em $100M). Mas tudo começou no imaginário do enorme Michael Crichton (ER, Jurassic Park – a mesma lógica do “parque-temático-que-dá-para-o-torto”), que escreveu e realizou o filme de 1973 com o mesmo nome (e que eu ainda não vi).

E valeu a pena. Mesmo com o conceito já usado recorrentemente na ficção de TV/Cinema (três dessas vezes por Michael Crichton), Westworld teve uma 1ª temporada bem forte. Não apanhei praticamente nenhuma das reviravoltas antes do momento em que as devia ter apanhado, embora isso tenha acontecido com outros.1 Thandie Newton imperial (especialmente no início da 2ª metade da temporada), Jeffrey Wright soberbo. Cenários épicos. Efeitos visuais em que o CGI mal se nota, ou não se nota de todo (o que mostra também como o dinheiro foi bem rentabilizado).2 Muita, muita nudez. (“It’s not porn, it’s HBO.”)

Depois deste final, fico muito expectante para a 2ª temporada, que ainda deve demorar para chegar (fala-se em 2018). As expectativas vão ser bastante elevadas, e até acaba por ser bom que chegue apenas daqui a mais de um ano – mais tempo para a preparação. Mas, para esta, conto já vê-la no chamado “ritmo normal”.

Mesmo assim, continua a haver demasiada coisa boa para ver. E não, não quero mais sugestões!


  1. Até admito que sim, talvez a série possa ter facilitado um pouco; eu vi a série quase toda seguida, outros viram-na semanalmente, com todo o espaço que existe entre episódios para teorizar e procurar explicações – algo que eu não fiz, porque tinha de fugir aos spoilers
  2. Por vezes, a fazer lembrar os do filme Ex Machina. 

10 Objectivos para 2017

Sim, é aquela altura do ano. Aliás, a altura do ano até já passou, mas tinha de expor as minhas ideias. E ando a trabalhar neste post, literalmente, desde o início do ano. Se querem saber quais os motivos por trás de cada opção, continuem a ler.

  1. Perder peso
  2. Ganhar músculo (abdominal, particularmente)
  3. Ler, pelo menos, 4 livros num ano (Goodreads)
  4. Escrever mais (ya, ’tá bem)
  5. Fazer mais episódios d’ A Cabeça do Ned ao vivo
  6. Começar outro podcast (para fazer entre temporadas d’ A Cabeça)
  7. Cortar nas séries
  8. Melhorar a minha capacidade de organização
  9. Começar a fazer dinheiro (sem me prostituir)
  10. Paz

Continue reading “10 Objectivos para 2017”

França, sei bem o que estão a sentir.

Foi há 12 anos. Doeu. Muito. Perder uma competição em casa, no maior estádio do país (e, consequentemente com o maior número de nós, fãs, presentes) dói. Perder contra uma equipa que não joga um cu (ou, como vocês dizem, um pescoço) dói.¹

E até gostava de ter pena de vocês. Mas:

  1. Já nos ganharam três meias-finais com um tipo que se revelou nojento e corrupto e outro de quem aprendi a gostar com o tempo mas por quem, na altura, tinha um asco tremendo;
  2. Vocês sim, jogaram de forma nojenta: Não descansaram enquanto não rebentaram com o Ronaldo (Payet, seu m*rdoso), rebentaram a chuteira ao Nani (para verem o nível de violência a que chegaram) e não sei como teria sido se o Éder não tivesse sacado algumas faltas.
  3. São franceses. I mean… São franceses.

Por isso, tenho pena dos adeptos que não representam o jogo nojento desta equipa. Eu sei o que é ver a nossa equipa perder uma competição no seu (emprestado ou oficial) estádio. Pelo menos duas vezes. E doeu. Ficou lá. E, ao contrário de nós, vocês já têm outras vitórias nesta competição e noutras. Mas bem sei que sacar dessa informação não vai melhorar o vosso estado de espírito: Esta era em casa, tinha de ser vossa. Mais do que ninguém, nós portugueses sabemos o que vocês estão a sentir.

Mas vai passar. Pelo menos um bocado.

Hoje cruzei-me com uma francesa. Agradeci-lhe. E ela deu-nos os parabéns.

¹ Se bem que a Grécia bloqueava muito mais o jogo que nós. Muito mau, mesmo.

Desculpa Éder.

A sério, desculpa-me.

Perdoa-me por gozar contigo por seres um avançado que não marca golos. Por dizer mal quando tinhas uma média de golos pior que a do Bruno Alves, do Maniche, do Meireles ou do Paulo Madeira (mas era maior que a do Danny). Sejamos francos: Todos achávamos que eras um pino (e ainda achamos, um bocado). Tinhas a 45ª melhor média de golos da Selecção, atrás de dois defesas e alguns médios que não eram propriamente médios ofensivos. Agora tens a 40ª. 31º lugar entre avançados.¹ Perdoa-me por ter dito que eras um cepo, um eucalipto no meio de pinheiros, um cone de sinalização mal aproveitado.

Depois de hoje mereces uma estátua. Deve ser feita uma estátua ao Éder, malta. Eu ponho 1€ para a construção da estátua, não posso pôr mais. Faço-te uma vénia, estendo-te uma passadeira verde-rubra. Pago-te uma imperial (apesar de teres todas as imperiais que quiseres pagas pela Sagres). Não te faço favores sexuais, mas convido quem o queira fazer a propor-se a isso. Porque mereces. Depois de todas as críticas, mereces.

Por isso, desfruta deste momento. E, mais uma vez, desculpa-me.

A sério, que se faça uma estátua ao Éder.

¹ Dados Zerozero.pt [link]

Confesso.

Confesso que houve ali momentos em que não acreditei. Nem foi com a convocatória, muito menos com o discurso megalómano de Fernando Santos (“só volto dia 11” – e afinal não foi preciso ir gastar o resto do tempo às praias da Riviera). I mean, nós temos estatuto para chegar à final. Temos – acreditem ou não – jogadores para isso.

Foi mesmo com a estratégia apresentada.

Três empates seguidos (colados a exibições terríveis) é péssimo para acreditar, especialmente depois de um jogo de encher o olho contra a Estónia.

Lá passámos. Golpe de sorte atrás de golpe de sorte. Um golo da Islândia no último minuto (já depois do Hungria x Portugal ter terminado) deu-nos este destino: O de jogar contra a França na final. (Sabem o que é que também nos podia ter dado este destino? Ganhávamos a m*rda do grupo.) Queixas de poucos (dois) dias de descanso antes do jogo com a Croácia, que vinha de uma vitória surpresa contra a Espanha. (Sabem o que é que nos dava mais dias de descanso? Ganhar a p*ta do grupo.)

Vêm os jogos a eliminar, muda o meio-campo. Aparentemente agora o Adrien (e, por consequência, o meio-campo do Sporting com rotinas e com uma solidez de envergonhar um qualquer André Gomes) já pode jogar. A esse grupo de três jogadores junta-se o puto da Musgueira (que se tem revelado uma surpresa muito para além do hype lampião – mais uma confissão: não esperava tanto dele).

Com a Croácia, o Quaresma desbloqueia. Dois dias de descanso (porque é que não fizeste para ganhar o grupo, Nandinho?), afinal, não afectaram muito. Vinham os polacos. Mas começava a haver uns zunzuns a circular: Será que a estratégia de Portugal era ganhar o Euro só com empates?

(Entenda-se: Empates no tempo regulamentar, que é o que conta como empates para o ranking FIFA e para os registos oficiais do jogo. Prolongamento e penalties é… Para desempatar. Vêem? Empates.)

“Não”, pensei eu. “Não pode.” Eu nunca fui fã da história do “boa publicidade ou má publicidade, o que quero é que falem de mim”. Essa lógica aplica-se à bola: Eu não quero ganhar competições à contabilista a fazer serviços mínimos. Ia ficar com sentimentos mistos em caso de uma vitória só com empates: Ou seja, ganhávamos, mas… Ganhávamos sem termos ganho um jogo. Não sei até que ponto é que seríamos um vencedor pior (independentemente da questão da justiça) que a Grécia (e acredito que é considerado por vários de nós que a Grécia é a pior vencedora de um torneio de sempre, pela forma como jogaram todo o Euro 2004).

Por isso, confesso: Não ia sentir um sentimento completo de vitória se Portugal não vencesse um jogo, um jogo que fosse. Não dava. É contra o meu ADN. Se é para ganhar, é para ganhar. Marcar mais golos que os outros. Não é “empata-se e depois logo se vê”.

Voltando: Polónia? Empate. Grande Renato, o puto sabe rematar à baliza. No meio de várias novas passwords de routers lá conseguimos ganhar nos penalties. O Rui Patrício, que tanto foi massacrado por “adeptos” do FC Porto há uns anos, com cartazes atrás da baliza? Já não é apenas São Patrício do Sporting, é São Patrício de Portugal. E nem é só pelos penalties deste jogo, também por algumas defesas importantes que fez.

Mas mais um empate.

No dia seguinte, o País de Gales dá uma lição à Bélgica (que não desiludiu tanto como previa – top de desilusões, por esta ordem: Rússia, Inglaterra, Bélgica) e apura-se para as meias-finais de uma grande competição de futebol pela primeira vez na sua história (não é a maior surpresa – já agora, top de surpresas, por esta ordem: Islândia, País de Gales, qualquer uma das Irlandas). Com uma equipa sólida. Com vitórias. Uma equipa vinda de um grupo com adversários (teoricamente) mais fortes que os do grupo F.

“Não são favas contadas”, pensava eu, “o País de Gales tem uma boa equipa mesmo sem o Ramsey e o Ben Davies. Ao menos não morre ninguém conhecido no dia seguinte.”

Mas continuava-me a preocupar. Se na fase de grupos foi a m*rda que vimos, se contra a Croácia desempatámos no prolongamento, se contra a Polónia só desempatámos nos penalties… Gales está com uma boa equipa.

Afinal ganhámos. 2-0. Cristiano “Michael Jordan” Ronaldo e Nani (que, aparentemente, deixou de dar mortais). Acumulado? 1V, 5E.

Nem sabem o peso que me tiraram de cima. Mostraram que conseguiam ganhar um jogo, que não queriam ir lá só com empates. E fizeram melhor (ou pior): Puseram-me a acreditar outra vez. Ainda mais.

Estou com fezada. Ronaldo de livre directo nos últimos minutos. Só para apagar um bocadinho do Platini dos registos históricos.

Sabiam que Ronaldo, Quaresma e Bruno Alves já derrotaram a França nos Sub-21 há 13 anos (playoff de apuramento para o Europeu da categoria em 2004)? O Moreira estava à baliza, tínhamos o Hélder Postiga a ponta-de-lança, o Hugo Viana estava lançado para ser o novo Rui Costa e jogavam ainda Makukula e Lourenço. Ronaldo e Bruno Alves marcaram, o Moreira defendeu um penalty (ganhámos o jogo 2-1, mas a eliminatória ficou empatada a 3 e acabou por ir a penalties). O Djibril Cissé (o loiro) foi expulso porque deu uma cacetada no Mário Sérgio. Depois rebentaram com o balneário em Clemont-Ferrand.

Se o balneário do Stade de France acabar em cacos, é bom sinal. Que acabe em cacos.

Confesso: Eu acredito. Chegou a nossa hora.

 

Rescaldo: 8½ Festa do Cinema Italiano (2016)

Aconteceu mais um 8½ Festa do Cinema Italiano (nota: “um”, não “uma”, porque o nome do festival inclui o 8½ no título), desta vez a 9ª edição do evento/certame/o que lhe queiram chamar. Salas cheias, um total de espectadores superior ao da edição passada, muitos Fiat 500 (de todos os tamanhos!), (pelo menos) um galã, um belo de um copo cheio de Aperol Spritz e umas valentes dezenas de sessões.

Apesar da multiplicidade de sessões e de me ter sido dado acesso a todas elas, por questões de agenda (mas também por opção própria) acabei por ir a apenas seis. Foram menos que no ano passado, mas com duas considerações extra: No ano passado 5 das 7 sessões a que fui eram da série “Gomorra” (actualmente em repetição aos Domingos na RTP2 – a 2ª temporada vem a caminho). Adicionalmente, as outras duas eram “O Bom, o Mau e o Vilão” e “Cinema Paraíso”. (Lembram-se quando a Sala Manoel de Oliveira ficou inundada? Foi depois disso.) Por isso, este ano, acabei por ver mais filmes.

Antes de continuar, um especial agradecimento à organização do 8½ Festa do Cinema Italiano. Uma equipa prestável, sempre a tentar garantir que a minha experiência (bem como a dos milhares de espectadores presentes em todas as sessões) fosse inesquecível.

(1963)

8½

Não sei o que se fumava em 1963, mas parece ser bom.

O interessante de ver pela primeira vez estes filmes uma catrefada de anos após a sua estreia é começar a fazer uma lista na nossa cabeça de tudo o que tenhamos visto que possa ter sido influenciado por isto. E a lista é longa. Depois, penso nos personagens e na confusão que se vai criando (na cena final já não se consegue distinguir a “realidade” da “ficção”) e pergunto até que ponto é que o personagem de Mastroianni não é o próprio Fellini, não tanto como as personificações de Woody Allen nos seus filmes (por vezes o próprio Allen). Absurdo, algo ilógico e absolutamente cativante.

(Sim, usei a palavra “cartefada”).

Se não o apanharam, ainda o podem ver nos cinemas UCI do El Corte Inglés (Lisboa) e Arrábida 20 (Gaia, Porto).

Suburra (2016)

Suburra
Foto: Emanuela Scarpa

Fui para o filme com algo na cabeça: É Gomorra (a série), mas em Roma. E essa expectativa foi cumprida, mas ficou um amargo de boca no final. Não me levem a mal, mas esperava um pouco mais. Obviamente não vou comparar o desenvolvimento dos personagens entre cada uma das obras, seria injusto para ambas (Gomorra é uma série, tem muito mais horas para o fazer, e é algo que Suburra também fará em breve, quando se estrear em formato série no Netflix). Suburra deu para matar saudades do estilo visual e narrativo de Gomorra enquanto não chega a 2ª temporada, no entanto não chega aos calcanhares da série no que toca à violência mostrada no ecrã. Também senti que o argumento não arriscou tanto como podia (e, possivelmente, devia). Por último, algo que não fez sentido absolutamente nenhum: A ligação ao Vaticano. O filme passa-se nos dias em que Bento XVI toma a decisão de abdicar do cargo (decisão que seria anunciada publicamente apenas em Fevereiro de 2013), o filme vai mostrando alguns momentos e… Pronto. É isso. Há uma ligação à história principal, mas é extremamente ténue (espero que seja explorada na versão televisiva, mas não vejo isso a acontecer). Em suma: É bom, mas podia ser melhor.

Suburra tem a sua estreia comercial no dia 21 de Abril em Lisboa e no Porto.

⭐️⭐️⭐️½

La Vita È Bella (1997)

A Vida É Bela

Não estava previsto inicialmente, mas para não ficar com pena de não poder ir ver o Padrinho no CinePop (irei falar sobre isso noutro post), acabei por o ir rever. O que é que posso dizer sobre A Vida É Bela que já não tenha sido dito? O cume da carreira de Roberto Begnini? O filme mais alegre sobre a II Guerra Mundial? É um daqueles filmes que é sempre bom rever, que nos recorda que, mesmo nas circunstâncias mais adversas, existe sempre algo bom na Humanidade (provavelmente isto também já foi dito). Ah: De cada vez que vejo o filme fico a gostar mais da Nicoletta Braschi.

Lo Chiamavano Jeeg Robot (2015)

lo chiamavano jeeg robot
Foto: Emanuela Scarpa

A grande surpresa da 9ª edição do 8½ Festa do Cinema Italiano, por vários motivos.

Primeiro, é um filme de super-heróis. Um filme de super-heróis da nova geração de filmes de super-heróis, naquele estilo mais cru a que fomos habituados em Daredevil e Jessica Jones (as séries da Marvel no Netflix). Sobre a história não há muito a dizer, é a clássica origin story de um super-herói (personagem está na m*rda, acontece-lhe alguma coisa que envolve radiação ou mutação genérica, personagem ganha super-poderes, há um mauzão e… para o resto, vejam o filme). Portanto, quando a história não é necessariamente original, o foco vira-se para a execução.

Aí, Claudio Santamaria (o galã de que falei no início do post; no final da sessão as meninas faziam fila para tirar foto com ele) consegue-nos vender o papel a 100%, a sua transição de pária da sociedade para herói amado pelo público. E, enquanto que a interpretação um pouco tresloucada de Ilenia Pastorelli me lembra a de Laurence Leboeuf em Turbo Kid (apesar de serem personagens completamente diferentes), as parecenças físicas de Luca Marinelli com Tom Hiddlestone (o Loki do Marvel Cinematic Universe) contribuem para o carisma de vilão que transmite – um patrão da máfia ambicioso que não tem medo de pôr as mãos na massa, ou [spoiler] rebentar com a cabeça de um colaborador com um iPhone [fim de spoiler].

Nota ainda para os efeitos visuais: Com um orçamento bem menor que as grandes produções de Hollywood consegue ter visuais mais credíveis que muitas grandes produções que usam “quilos” de efeitos CGI. No geral, uma realização extremamente competente de Gabriele Mainetti na sua primeira longa-metragem.

Lo Chiamavano Jeeg Robot é a prova absoluta de que não é preciso estar num país anglófono para se fazer um excelente filme de super-heróis, bem como a de que o cinema dramático europeu não se resume a um triste espectáculo de pretensiosismo intelectual (aliás, dos seis filmes que vi, o que está mais próximo disso é mesmo o 8½, que é apenas louco). Na sessão de Q&A que se seguiu ao filme, Claudio Santamaria confirmou que há a possibilidade de uma sequela.

Segundo motivo da surpresa: Foi o Vencedor Absoluto do 8½ FCI, ao não apenas ganhar o prémio do Público mas também o prémio do Júri. Um filme de super-heróis a vencer um festival de cinema europeu. E esta, hein?

⭐️⭐️⭐️⭐️½

Brutti, Sporchi e Cattivi (1976)

Feios, Porcos e Maus

Para um viciado em séries de TV que nunca tinha visto Feios, Porcos e Maus, é impossível não fazer uma comparação com Shameless. Mas a miséria desta família é pior, tanto na conta bancária como nas personalidades. Filme recheado de piadas fáceis. Não há nada de muito assinalável a nenhum nível neste filme. O que é que aprendemos com isto? Nada, para além do que já tinha aprendido com reality-shows: Gostamos sempre de ver a desgraça alheia.

Quo Vado? (2016)

Quo Vado?

Na sessão que encerrou este 8½ Festa do Cinema Italiano e que coroou Lo Chiamavano Jeeg Robot como o grande (e surpreendente) vencedor desta edição, somos brindados com esta pérola. Um filme que, pelo material promocional, tinha tudo para correr mal: Material gráfico manhoso e um trailer curto (mas divertido) e que não conta muito da história. Os resultados de box office em Itália eram extremamente bons (arrumou Star Wars: O Despertar da Força a um canto depois de conseguir o triplo do que este obteve). Os do Pátio das Cantigas (o triste e desnecessário remake de Leonel Vieira, que já nos trouxe clássicos de culto como A Bomba, e que é o filme mais visto de sempre nas salas portuguesas) também. Vinha etiquetado por muitos como “popularucho”.

Tenho notícias: Os italianos fazem melhores filmes popularuchos que nós. O filme é todo ele uma sátira extrapolada ao estereótipo do funcionário público (que se aplica tanto em Itália como em Portugal). Tem piada, talvez uma ou duas piadas se tenham perdido na tradução (com naturalidade). Não é um filme revolucionário (nem o tenta ser), não é uma comédia que vai ficar para a história (nem o tenta ser). É mais uma comédia boa para ver em família, a um domingo à tarde. Está algures no meio entre “tens de ver” e “não há mais nada para ver”. Vão-se divertir, mas não muito mais que isso.

E sim, é melhor que o Pátio das Cantigas.

Vai ter estreia comercial em Portugal

⭐️⭐️⭐️

O 8½ Festa do Cinema Italiano continuará em tournée por Portugal, indo a várias cidades de norte a sul do país (Aveiro: 8 a 10 de Maio!), seguindo também para Angola, Moçambique e para o Brasil.

Em estágio: 8½ Festa do Cinema Italiano (2016)

A 9ª edição do 8½ Festa do Cinema Italiano começou ontem (30 de Março), estende-se até 7 de Abril e, para já, são só 5 os filmes que definitivamente vou ver, mas podem ser mais.  (UCI do El Corte Inglés, consultar horários aqui), Suburra (Sábado, 2, 21h30), Lo Chiamavano Jeeg Robot (Domingo, 3, 19h), Feios, Porcos e Maus (Domingo, 3, 21h30) e Quo Vado? (Quinta, 7, 21h30). Ainda estou em dúvida se vou ou não ver (novamente) A Vida É Bela (pela primeira vez) num ecrã de cinema (Domingo, 3, 16h30).

Vou tentar escrever pequenas notas sobre os filmes que vou ver. Têm sugestões para mais filmes? E, se estiverem por lá, avisem! 😉

#ManuelBreaksTheInternet: Portugal em Festa

Parece que o Portugal em Festa foi cancelado. Rejubilemos por isso (yey), mas este post não é para rejubilar por isso. É porque aconteceu algo estranho.

Reparem nos números. Completamente fora do comum.

E isto no dia de aniversário do Twitter. Depois de um tweet em que dizia “Feeling ignored.” (Oh, a ironia.)

#ManuelBreaksTheInternet
(Valores dos primeiros 60 minutos após a publicação. Neste momento já ultrapassou as 43000 impressões. A taxa de engagement? Na altura do screenshot era de 7,66%.)

E depois dizem-me: “És trend.”

Gotta #LoveTwitter. Mas…

COMO É QUE ACONTECEU SE NEM SEQUER VEJO O PORTUGAL EM FESTA?

Não faço puto ideia. Por um lado, não há hashtags. Por outro, o grande Bruno Nunes (que já é um pro destas andanças agora e vai ser ainda mais pro daqui a uns anos) deu-me algumas justificações:

Trocadilho do nome do programa + notícia aguardada por grande parte da população portuguesa + horário do tweet (muita gente já por casa) + boa base de seguidores que tens.

Vamos por partes:

  • O trocadilho: Pensado (obviamente).
  • Notícia aguardada: Considerando a população jovem que habita no Twitter + a população menos jovem (calma, tipo eu) que preferia (e prefere) as tardes de filmes/abomina música pimba, ok.
  • Horário do tweet: 21h37. Perfeito.
  • Boa base de seguidores: 3100. Não me queixo (sem sobranceria).

Já agora, no Facebook também está a correr bem (107 reacções, 6 comentários e uma partilha à hora de publicação deste post). No entanto, chego a uma conclusão:

Foi sorte.

Foi mera sorte. Os factores contribuiram, sim… Mas, no final, acho que acabou por ser sorte. Não irei conseguir replicar isto tão cedo. É viral puro: Não foi feito para isso e, no entanto, aconteceu. Correu bem.

Uma nota final

O Twitter é uma ferramenta fantástica. No entanto, as constantes alterações que têm sido feitas em favor do capital e que o tornam cada vez mais igual ao Facebook têm falhado em captar utilizadores. Tal como o Pedro Guerreiro remata na sua crónica no Público, “no dia em que o Twitter se tornar no Facebook, que argumento poderá demover os seus utilizadores de migrarem para a rede rival?”

É essa a principal diferença destes 10 anos. Eu vejo o Twitter como um local para treinar a brevidade das mensagens, 140 caracteres e pronto. Menos se tiver de pôr um link, uma hashtag ou uma imagem (ou várias). 10000 caracteres? Fica igual. Tem de se tornar apelativo aos anunciantes? É claro que tem. Mas se perder aquilo que o caracteriza, será que não vai perder público? Se perder público, fará sentido ir lá vender produtos? Era bom que eles (em San Francisco) pensassem nisto.

O Twitter mudou (ou reformatou, vá) a minha vida nos últimos quase oito anos. Conheci dezenas de pessoas graças ao Twitter, a maior parte delas fantásticas. Fui a festas, a jantares, a noitadas e a casamentos. Vi aviões a amarar, hambúrgueres a serem entregues, acidentes de comboio (não foi grave, descansem), verdadeiros e falsos golpes de Estado, noites de sit-down comedy, eventos, muito humor todos os dias. Visto a camisola (literalmente, e tenho duas) com muito orgulho. Não quero que o Twitter seja um Facebook, para isso já temos um – o Facebook. Quero que o Twitter se mantenha nos seus 140 caracteres, com foco no tempo real. Só isso. Basta. Podem aparecer tweets patrocinados, desde que não interfiram. Mas não me aumentem o limite de caracteres nem me reorganizem a timeline. Para isso já serve o Facebook.

Duas séries (I): Galavant e Terapia

Vamos lá tentar fazer uma coisa destas regularmente, shall we? Terei duas séries sempre que escrever aqui. O nome indica isso mesmo. Começo com Galavant e Terapia.

Galavant (ABC)

Regresso em força da comédia musical de Dan Fogleman, depois da renovação surpresa da temporada passada. Em cinco semanas se despacharam 10 episódios (dois em cada domingo de Janeiro), se bem que acredito ser a melhor forma de transmitir a série (combinação ritmo/duração/utilização das músicas). A música (de Alan Menken, o tipo que nos deu as bandas sonoras de The Little Mermaid, Beauty and the Beast, Aladdin e Pocahontas e que ganhou 8 Óscares à pala disso) continua bem presente, bem como as letras subversivas (e carregadinhas de meta-piadas) de Glenn Slater, se bem que por vezes algo preguiçosas (poucas palavras. Ou seja: Se gostaram da temporada anterior, continuem a ver. Voltamos a ter actores convidados de luxo (Hugh Bonneville regressa a este mundo, Kylie Minogue também aparece, “Weird Al” Yankovic volta a fazer uma perninha), músicas gozonas, um elenco competente (especial destaque para Timothy Odmunson pela performance e para Karen David pela cantoria e… outros motivos) e muito humor. Aproveitem o que podem, porque as audiências estão uma m*rda.

Se nunca a viram, não sabem o que perdem. Criada por Dan Fogleman, o homem que nos trouxe a mal-amada The Neighbors e escreveu os filmes Tangled e Crazy, Stupid, Love., Galavant passa-se num reino fictício e segue as aventuras do herói epónimo que tenta reclamar o seu final feliz (“a fairytale cliché”), tudo num ambiente medieval e musical. Aliás, nada me tira da cabeça que o Alan Menken está a fazer esta série para ganhar um Emmy, o único prémio que lhe falta para ter conquistado todos os majors (EGOT: Emmy, Grammy, Oscar e Tony).

Se viram (e gostaram) alguma coisa desta lista é provável que gostem de Galavant:

  • Community — meta-humor, e o Magnitude (Luke Youngblood, POP POP!) participa nela);
  • The Neighbors — mesmo criador, também tem meta-humor, também teve azar com as audiências e deu a Alan Menkan a sua primeira nomeação a um Emmy com o seu primeiro episódio musical;
  • Robin Hood: Men In Tights (Herói em Collants) — O ambiente da série é semelhante ao do clássico de Mel Brooks.
  • Qualquer coisa com o Vinnie Jones e gostaram dele: Vinnie fuckin’ Jones! E canta! E não se safa nada mal!

Terapia (RTP)

Virgílio Castelo – actual consultor de ficção da RTP1 – protagoniza a adaptação portuguesa do formato israelita BeTipul (provavelmente a versão mais conhecida cá será a americana In Treatment, da HBO, protagonizada por Gabriel Byrne). Já tinha visto alguns episódios da versão americana e achei o conceito interessante: Uma série diária, quase sempre um diálogo a dois, intenso (como uma consulta de psicoterapia pode ser).

Em Terapia (vêem o que fiz aqui?), Virgílio Castelo está muito bem no papel de Mário. Conseguiu apanhar o olhar de um psicoterapeuta (infelizmente. De todos os pacientes tenho que dar um destaque óbvio a Nuno Lopes e a Catarina Rebelo. O primeiro por mostrar mais uma vez que é um dos melhores actores portugueses no activo. O que dizer sobre Nuno Lopes que já não tenha sido dito? É sempre fantástico vê-lo no ecrã. Quanto a Catarina Rebelo, a grande revelação (pelo menos para mim, que me recuso a ver novelas). Um papel que não é de fácil interpretação. A miúda, episódio a episódio, reforça o motivo de aposta. Nota ainda para Leonor Silveira, naquele que é (aparentemente) o seu primeiro trabalho em televisão em mais de 25 anos de carreira. Excelente escolha para o papel (se bem que, por vezes, não ache que a entrega do texto seja tão boa quanto podia ser).

No entanto, nem tudo são rosas: Por muito que nos tentem impor, não há o mínimo de química entre Laura (uma Soraia Chaves sempre sedutora e a interpretar muito bem o papel que lhe é dado) e Mário. É que simplesmente não há. Fico com arrepios quando vejo aquelas cenas, mas não são dos bons. É cringeworthy. Parem. Vá lá. Dói muito ver essas cenas. Fico com vontade de cortar os pulsos (figurativamente). Outra coisa que dói? A utilização da música, especialmente quando é dito algo importante. Dizem o nome de alguém novo? “Ta-na-na-naaaan…” Alguém dá um chapadão? “Ta-na-na-naaaan…” Está um tipo dos CTT Expresso à porta com uma encomenda? “Ta-na-na-naaaan…” Às vezes não é assim tão importante ter estes momentos. Aliás, eu passava muito bem um episódio só com os diálogos entre os personagens e foley.

Apesar deste parágrafo de queixas, Terapia é uma série bem conseguida e a demonstração de que “sim, é possível” fazer outra coisa em Portugal que não novelas e ter qualidade no guião (tudo bem que é estrangeiro, mas tem qualidade).

P.S.: Nota positiva ainda para a estratégia de distribuição da RTP: Os episódios passam na emissão linear da RTP1 só depois das 22h, mas estão disponíveis para serem vistos no RTP Play a partir da hora de almoço. Excelente ideia.

Quando é que isto volta? Não sei. Um dia. Quando me apetecer.