Inhumans: Dá Deus nozes a quem não tem dentes

Deixem-me começar este texto já por dar o meu veredicto: Ir ver Inhumans ao cinema é um desperdício de dinheiro.

Antes, um resumo da história até agora: a série, que estreia no próximo dia 29 de Setembro nos EUA e uma semana depois em Portugal (no TVSéries), começou por ser projectada como filme da fase 3 do MCU (a actual) e com estreia prevista para 2018. No entanto, e com a necessidade de incluir sequelas, o filme foi entretanto cancelado. Anos antes, pouco depois do anúncio do filme, os Inumanos foram inseridos na história de Agents of S.H.I.E.L.D. (e ainda bem). Em Novembro de 2016, a Marvel e a IMAX anunciaram uma série de oito episódios, com os primeiros episódios pagos pela IMAX, filmados com câmaras IMAX e a estrear em salas IMAX em todo o mundo.

A realização da série foi dada a Roel Reiné, conhecido e reconhecido realizador pelo seu trabalho em O Rei Escorpião 3, Death Race 2 (e 3) ou 12 Rounds 2: Sequelas ranhosas de originais ranhosos. “Mas alto lá”, diz a Marvel/Disney/ABC, “que contratámos o Iwan Rheon“, que fez de vilão em Game of Thrones, num papel aclamado pela crítica, para fazer de… vilão. O resto do elenco (que, na foto promocional, parece ser da paródia porno à série em vez da própria série) recebe gente que ou foi fazendo uns papéis em episódios de várias séries (Eme Ikwuakor), fez séries mais obscuras ou de pouco sucesso (Anson Mount, Serinda Swan, Sonya Balmores, Ellen Woglom) ou é completamente desconhecida do grande público e extremamente irritante (Isabelle Cornish, que não sabe – ou não foi bem dirigida para isso – trabalhar com um cão gigante em CGI) ou fez uma série famosa no Hawaii (Ken Leung, Lost) e ajuda aos déjà vus que temos ao ver alguns planos deste episódio de Inhumans (e consta que o Henry Ian Cusick também vai aparecer).

Confesso que fui ver o episódio ao cinema já com algum bias negativo: li uma entrevista com o realizador do filme/piloto/dois primeiros episódios em que ele dizia que tinha sido contratado porque fazia “depressa e barato”, vi que a Marvel/Disney/ABC retirou o primeiro episódio (que parece que não era para reviews) do site de imprensa e a revelar que os episódios teriam mais tempo na sua versão televisiva (o que pode fazer com que menos gente vá ver o episódio), e, em Portugal, estão a aproveitar este projecto para fazer pela primeira vez a promoção de dois bilhetes pelo preço de um. Até parece que querem que falhe.

Mesmo esse preço (fica a 5,25€ por pessoa, já agora) é um assalto. Aliás, e como foi dito por alguém que viu o episódio na antestreia: “Eu não paguei e sinto-me assaltada.” Não há NENHUM plano – NENHUM! – que valha a pena ver em IMAX e que seja suficientemente diferente daquilo que se vê numa série televisiva. Pior: Há momentos em que há um arrastamento da imagem e – esta é imperdoável – close-ups desfocados. Isto só no trabalho de câmara. A escrita é preguiçosa, dando a uma personagem o trabalho de traduzir tudo o que o Rei Mudo (o Black Bolt, que liberta uma quantidade letal de energia quando fala) diz, ignorando que, provavelmente, a família até percebe aquela linguagem gestual e que estão a ocupar preciosos minutos de TV que podiam ser usados para outras coisas.^1 Há erros de continuidade graves, dissonâncias entre as personagens que não se percebem (duas mulheres à porrada, uma está cheia de sangue, a outra nem por isso) e mau, mau, terrível acting, com Cornish à cabeça (ela é imensamente irritante) e Leung – o gajo com a melhor experiência do elenco – muito perto. Rheon está ok, mas este vilão é um menino de coro ao pé do Ramsay Bolton. E há sotaques americanos demasiado forçados.

No entanto, há algum mérito: um plot twist que eu não via a acontecer (apesar dessa cena ter momentos terríveis), uma linguagem gestual desenvolvida propositadamente por Anson Mount (revela dedicação ao papel) e o raio do cão (embora se note o CGI à distância) é fofo e o efeito do tele-transporte está bem conseguido. No entanto, nada disto disfarça a bosta que esta experiência está a ser. Pior: nada disto disfarça a operação de marketing embaraçosa que acompanha este “filme”, e tenho receio de que esta experiência possa ter repercussões na reputação do MCU e das séries da Marvel.

Não vejam no cinema, nem se dêem ao trabalho de subscrever o TVSéries por causa disto. O canal tem coisas bem melhores.

^1: Isto tudo porque os americanos-que-vêem-séries-de-network-TV (o melhor equivalente possível aos nossos canais generalistas) não lêem legendas.

Published by Manuel Reis

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