Calma lá com isso de “vamos ganhar a Eurovisão”

Subitamente, o Festival da Canção da Eurovisão (ESC) voltou a ficar popular. O que é que mandámos lá desta vez? Outra música escrita pelo Emanuel? Um cantor pimba que precisa de um jumpstart na carreira? Uma girlsband que já passou o seu auge? Cenas flashy, músicos em playback e coreografias maradas?

Não. Este ano, e para sermos diferentes, mandámos isto.

O alto Salvador Sobral, dono de uma voz particularmente suave, com uma música (escrita pela irmã, Luísa) que se destaca a dois níveis:

  • Cá, pela ternura e pela completa ausência de referências directas ou indirectas a Portugal. É uma balada, tem uma letra triste (mas esperançosa), mas não é nenhum fado, nem tem guitarras portuguesas, nem referências a mar, água ou descobrimentos, nem é nenhuma tentativa de ser pop de 2ª categoria (raramente uma música do Festival RTP da Canção – FRC – nos últimos 20 anos – talvez mais – conseguiu atingir um estatuto radio-worthy).
  • Lá fora, por ser completamente diferente daquilo que actualmente é considerado eurovisivo: glitter, semi-nudez, instrumentos em palco como meros adereços, e um factor freakshow que garante que as coisas fiquem na memória: há uns anos foi a Conchita e a sua barba (vencedora justíssima, já agora), este ano são as passadeiras rolantes da Suécia e o macaco Adriano da Itália.

A música deste ano resulta de uma nova abordagem que foi feita pela direcção da RTP ao FRC: Vamos pegar nos autores da “nova música portuguesa” e pedir-lhes músicas. Não necessariamente músicas eurovisivas, apenas boas músicas. O resultado, de uma forma geral, foi bastante melhor (a nível qualitativo – na minha opinião) do que em anos anteriores. E, curiosamente (e desde que se introduziu por cá o formato 50/50 na votação), esta é provavelmente a canção com o maior consenso geral do público desde… Sei lá, Chamar a Música? O Meu Coração Não Tem Cor?

Isto para dizer que sim, acompanho o ESC e o FRC. Não obsessivamente: Tento ver as galas (faço questão de insistir em ver a final), avalio as músicas de que gosto mais e menos e as performances. Normalmente não ouço as músicas antes de ver a performance na TV. Antes das galas, vão-me aparecendo rankings de casas de apostas nos feeds e sigo por aí quais são as favoritas e quais são as surpresas. Tento-me informar da história dos outros países (a powerhouse sueca, os anos de sucesso da Irlanda, as ajudas à Europa de Leste) para além da única história que nos interessa: em 52 anos e 48 participações, Portugal nunca venceu o ESC. É recorde. Já sinto os outros países a sentirem pena de nós.

Mas, este ano, as coisas até estão a correr bem. O Salvador não se está apenas a safar bem, está a ter uma excelente reacção do público. Foi o concorrente que mais buzz gerou no Facebook nas semi-finais.

Em Portugal, há duas coisas que toda a gente gosta de ver:

  • Um acidente;
  • Algo a correr extremamente bem.

Nesta segunda, há sempre um senão: a malta começa logo com “somos os maiores.” “Vamos ganhar, vamos dar cabo deles, e foi o Eder que os f*deu.” Com tanto entusiasmo, qualquer coisa que não seja a vitória vai ligar as vozes da desgraça. “Para que é que fazemos as coisas se não é para ganhar?” Ao menos não vão dizer “porque é que os mandámos lá, para fazerem figuras tristes?” – está muita gente feliz com a música.

Mas este ano, e com as coisas a correr bem, há (bem) mais gente a ver. A audiência deste ano foi quase o triplo da de 2015, data da nossa última participação (com isto). O que me faz perguntar: onde é que vocês estavam?

A sério, onde é que estavam quando mandámos isto, isto, isto, isto, isto, isto, isto ou isto? Rui Bandeira? Duas – não uma, duas! – músicas escritas pelo Emanuel? Nonstop já sem uma das participantes originais e quatro anos depois de realmente significarem alguma coisa em Portugal? Rita Guerra? 2B, a nossa tentativa (mais do que falhada) de tentarmos fazer algo eurovisivo? E, por muito que goste da música e que tenha votado nela e que a tenha apoiado: onde é que vocês estavam quando enviámos os Homens da Luta?

Ainda tivemos, pelo meio, dois exemplos com algum sucesso: Vânia Fernandes e Flor-de-Lis. Até não eram más, mas caíam naquele primeiro ponto de que falei antes: músicas muito, muito portuguesas (uma a falar de “mar”, outra com sonoridades típicas da música tradicional portuguesa – um pouco como Deolinda). Mas nenhuma teve este tipo de apoio, este tipo de buzz positivo, de ter um país a torcer para que dê.

Muita gente voltou a lembrar-se da existência dos dois festivais. Mérito para a nova abordagem da RTP e para a sorte que tivemos em ter esta música a vencer. E, amanhã, vai estar muita gente agarrada ao ecrã. Nos sites de apostas, a disputa pelo primeiro lugar está renhida. Nos últimos dias andámos a trocar lugares com a Itália. O entusiasmo é tanto que há imensos (demasiados?) OCSs a dizer “ESTAMOS EM PRIMEIRO!” sempre que um site de apostas nos põe em primeiro lugar. Acalmem-se lá.

Se acredito que dê para ganhar? Estou muito céptico. I mean, a Itália tem um tipo vestido de gorila. Mas não me lembro de alguma vez ter visto Portugal tão perto da vitória. Vamos ao top 10. Talvez top 6. Daí para cima… É-me difícil analisar.

Se ganharmos, vou fazer por ser um dos espectadores ao vivo no mega-espectáculo que organizarmos. Se não ganharmos, não quero ouvir as vozes da desgraça. Não somos uma merda. Valemos alguma coisa. Isso há-de ficar demonstrado. Evoluímos muito nos últimos 20 anos. Lembrem-se: Rui Bandeira.

(Foto: Thomas Hanses, eurovision.tv)

Published by Manuel Reis

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