Confesso.

Confesso que houve ali momentos em que não acreditei. Nem foi com a convocatória, muito menos com o discurso megalómano de Fernando Santos (“só volto dia 11” – e afinal não foi preciso ir gastar o resto do tempo às praias da Riviera). I mean, nós temos estatuto para chegar à final. Temos – acreditem ou não – jogadores para isso.

Foi mesmo com a estratégia apresentada.

Três empates seguidos (colados a exibições terríveis) é péssimo para acreditar, especialmente depois de um jogo de encher o olho contra a Estónia.

Lá passámos. Golpe de sorte atrás de golpe de sorte. Um golo da Islândia no último minuto (já depois do Hungria x Portugal ter terminado) deu-nos este destino: O de jogar contra a França na final. (Sabem o que é que também nos podia ter dado este destino? Ganhávamos a m*rda do grupo.) Queixas de poucos (dois) dias de descanso antes do jogo com a Croácia, que vinha de uma vitória surpresa contra a Espanha. (Sabem o que é que nos dava mais dias de descanso? Ganhar a p*ta do grupo.)

Vêm os jogos a eliminar, muda o meio-campo. Aparentemente agora o Adrien (e, por consequência, o meio-campo do Sporting com rotinas e com uma solidez de envergonhar um qualquer André Gomes) já pode jogar. A esse grupo de três jogadores junta-se o puto da Musgueira (que se tem revelado uma surpresa muito para além do hype lampião – mais uma confissão: não esperava tanto dele).

Com a Croácia, o Quaresma desbloqueia. Dois dias de descanso (porque é que não fizeste para ganhar o grupo, Nandinho?), afinal, não afectaram muito. Vinham os polacos. Mas começava a haver uns zunzuns a circular: Será que a estratégia de Portugal era ganhar o Euro só com empates?

(Entenda-se: Empates no tempo regulamentar, que é o que conta como empates para o ranking FIFA e para os registos oficiais do jogo. Prolongamento e penalties é… Para desempatar. Vêem? Empates.)

“Não”, pensei eu. “Não pode.” Eu nunca fui fã da história do “boa publicidade ou má publicidade, o que quero é que falem de mim”. Essa lógica aplica-se à bola: Eu não quero ganhar competições à contabilista a fazer serviços mínimos. Ia ficar com sentimentos mistos em caso de uma vitória só com empates: Ou seja, ganhávamos, mas… Ganhávamos sem termos ganho um jogo. Não sei até que ponto é que seríamos um vencedor pior (independentemente da questão da justiça) que a Grécia (e acredito que é considerado por vários de nós que a Grécia é a pior vencedora de um torneio de sempre, pela forma como jogaram todo o Euro 2004).

Por isso, confesso: Não ia sentir um sentimento completo de vitória se Portugal não vencesse um jogo, um jogo que fosse. Não dava. É contra o meu ADN. Se é para ganhar, é para ganhar. Marcar mais golos que os outros. Não é “empata-se e depois logo se vê”.

Voltando: Polónia? Empate. Grande Renato, o puto sabe rematar à baliza. No meio de várias novas passwords de routers lá conseguimos ganhar nos penalties. O Rui Patrício, que tanto foi massacrado por “adeptos” do FC Porto há uns anos, com cartazes atrás da baliza? Já não é apenas São Patrício do Sporting, é São Patrício de Portugal. E nem é só pelos penalties deste jogo, também por algumas defesas importantes que fez.

Mas mais um empate.

No dia seguinte, o País de Gales dá uma lição à Bélgica (que não desiludiu tanto como previa – top de desilusões, por esta ordem: Rússia, Inglaterra, Bélgica) e apura-se para as meias-finais de uma grande competição de futebol pela primeira vez na sua história (não é a maior surpresa – já agora, top de surpresas, por esta ordem: Islândia, País de Gales, qualquer uma das Irlandas). Com uma equipa sólida. Com vitórias. Uma equipa vinda de um grupo com adversários (teoricamente) mais fortes que os do grupo F.

“Não são favas contadas”, pensava eu, “o País de Gales tem uma boa equipa mesmo sem o Ramsey e o Ben Davies. Ao menos não morre ninguém conhecido no dia seguinte.”

Mas continuava-me a preocupar. Se na fase de grupos foi a m*rda que vimos, se contra a Croácia desempatámos no prolongamento, se contra a Polónia só desempatámos nos penalties… Gales está com uma boa equipa.

Afinal ganhámos. 2-0. Cristiano “Michael Jordan” Ronaldo e Nani (que, aparentemente, deixou de dar mortais). Acumulado? 1V, 5E.

Nem sabem o peso que me tiraram de cima. Mostraram que conseguiam ganhar um jogo, que não queriam ir lá só com empates. E fizeram melhor (ou pior): Puseram-me a acreditar outra vez. Ainda mais.

Estou com fezada. Ronaldo de livre directo nos últimos minutos. Só para apagar um bocadinho do Platini dos registos históricos.

Sabiam que Ronaldo, Quaresma e Bruno Alves já derrotaram a França nos Sub-21 há 13 anos (playoff de apuramento para o Europeu da categoria em 2004)? O Moreira estava à baliza, tínhamos o Hélder Postiga a ponta-de-lança, o Hugo Viana estava lançado para ser o novo Rui Costa e jogavam ainda Makukula e Lourenço. Ronaldo e Bruno Alves marcaram, o Moreira defendeu um penalty (ganhámos o jogo 2-1, mas a eliminatória ficou empatada a 3 e acabou por ir a penalties). O Djibril Cissé (o loiro) foi expulso porque deu uma cacetada no Mário Sérgio. Depois rebentaram com o balneário em Clemont-Ferrand.

Se o balneário do Stade de France acabar em cacos, é bom sinal. Que acabe em cacos.

Confesso: Eu acredito. Chegou a nossa hora.

 

Published by Manuel Reis

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