Duas séries (I): Galavant e Terapia

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Vamos lá tentar fazer uma coisa destas regularmente, shall we? Terei duas séries sempre que escrever aqui. O nome indica isso mesmo. Começo com Galavant e Terapia.

Galavant (ABC)

Regresso em força da comédia musical de Dan Fogleman, depois da renovação surpresa da temporada passada. Em cinco semanas se despacharam 10 episódios (dois em cada domingo de Janeiro), se bem que acredito ser a melhor forma de transmitir a série (combinação ritmo/duração/utilização das músicas). A música (de Alan Menken, o tipo que nos deu as bandas sonoras de The Little Mermaid, Beauty and the Beast, Aladdin e Pocahontas e que ganhou 8 Óscares à pala disso) continua bem presente, bem como as letras subversivas (e carregadinhas de meta-piadas) de Glenn Slater, se bem que por vezes algo preguiçosas (poucas palavras. Ou seja: Se gostaram da temporada anterior, continuem a ver. Voltamos a ter actores convidados de luxo (Hugh Bonneville regressa a este mundo, Kylie Minogue também aparece, “Weird Al” Yankovic volta a fazer uma perninha), músicas gozonas, um elenco competente (especial destaque para Timothy Odmunson pela performance e para Karen David pela cantoria e… outros motivos) e muito humor. Aproveitem o que podem, porque as audiências estão uma m*rda.

Se nunca a viram, não sabem o que perdem. Criada por Dan Fogleman, o homem que nos trouxe a mal-amada The Neighbors e escreveu os filmes Tangled e Crazy, Stupid, Love., Galavant passa-se num reino fictício e segue as aventuras do herói epónimo que tenta reclamar o seu final feliz (“a fairytale cliché”), tudo num ambiente medieval e musical. Aliás, nada me tira da cabeça que o Alan Menken está a fazer esta série para ganhar um Emmy, o único prémio que lhe falta para ter conquistado todos os majors (EGOT: Emmy, Grammy, Oscar e Tony).

Se viram (e gostaram) alguma coisa desta lista é provável que gostem de Galavant:

  • Community — meta-humor, e o Magnitude (Luke Youngblood, POP POP!) participa nela);
  • The Neighbors — mesmo criador, também tem meta-humor, também teve azar com as audiências e deu a Alan Menkan a sua primeira nomeação a um Emmy com o seu primeiro episódio musical;
  • Robin Hood: Men In Tights (Herói em Collants) — O ambiente da série é semelhante ao do clássico de Mel Brooks.
  • Qualquer coisa com o Vinnie Jones e gostaram dele: Vinnie fuckin’ Jones! E canta! E não se safa nada mal!

Terapia (RTP)

Virgílio Castelo – actual consultor de ficção da RTP1 – protagoniza a adaptação portuguesa do formato israelita BeTipul (provavelmente a versão mais conhecida cá será a americana In Treatment, da HBO, protagonizada por Gabriel Byrne). Já tinha visto alguns episódios da versão americana e achei o conceito interessante: Uma série diária, quase sempre um diálogo a dois, intenso (como uma consulta de psicoterapia pode ser).

Em Terapia (vêem o que fiz aqui?), Virgílio Castelo está muito bem no papel de Mário. Conseguiu apanhar o olhar de um psicoterapeuta (infelizmente. De todos os pacientes tenho que dar um destaque óbvio a Nuno Lopes e a Catarina Rebelo. O primeiro por mostrar mais uma vez que é um dos melhores actores portugueses no activo. O que dizer sobre Nuno Lopes que já não tenha sido dito? É sempre fantástico vê-lo no ecrã. Quanto a Catarina Rebelo, a grande revelação (pelo menos para mim, que me recuso a ver novelas). Um papel que não é de fácil interpretação. A miúda, episódio a episódio, reforça o motivo de aposta. Nota ainda para Leonor Silveira, naquele que é (aparentemente) o seu primeiro trabalho em televisão em mais de 25 anos de carreira. Excelente escolha para o papel (se bem que, por vezes, não ache que a entrega do texto seja tão boa quanto podia ser).

No entanto, nem tudo são rosas: Por muito que nos tentem impor, não há o mínimo de química entre Laura (uma Soraia Chaves sempre sedutora e a interpretar muito bem o papel que lhe é dado) e Mário. É que simplesmente não há. Fico com arrepios quando vejo aquelas cenas, mas não são dos bons. É cringeworthy. Parem. Vá lá. Dói muito ver essas cenas. Fico com vontade de cortar os pulsos (figurativamente). Outra coisa que dói? A utilização da música, especialmente quando é dito algo importante. Dizem o nome de alguém novo? “Ta-na-na-naaaan…” Alguém dá um chapadão? “Ta-na-na-naaaan…” Está um tipo dos CTT Expresso à porta com uma encomenda? “Ta-na-na-naaaan…” Às vezes não é assim tão importante ter estes momentos. Aliás, eu passava muito bem um episódio só com os diálogos entre os personagens e foley.

Apesar deste parágrafo de queixas, Terapia é uma série bem conseguida e a demonstração de que “sim, é possível” fazer outra coisa em Portugal que não novelas e ter qualidade no guião (tudo bem que é estrangeiro, mas tem qualidade).

P.S.: Nota positiva ainda para a estratégia de distribuição da RTP: Os episódios passam na emissão linear da RTP1 só depois das 22h, mas estão disponíveis para serem vistos no RTP Play a partir da hora de almoço. Excelente ideia.

Quando é que isto volta? Não sei. Um dia. Quando me apetecer.

Published by Manuel Reis

3 thoughts on “Duas séries (I): Galavant e Terapia

  1. Eu tomei particularmente atenção ao comentário sobre “Terapia”, porque também sigo a série e já vi “In Treatment”. Fiquei agradada com o facto de teres gostado da série e receber comentários tão positivos, uma vez que séries como este tipo e com o conceito de terapia como tema central não tem muitos adeptos em Portugal. Quanto à Soraia Chaves, tenho que dizer que é a atriz que menos gosto, e é o caso que menos aprecio também. Escreves muito bem! Keep going!

  2. Cheguei a pensar que eu era a única pessoa em Portugal a ver Galavant. A primeira temporada é fenomenal, e o tema de abertura da segunda não lhe fica atrás, mas a temporada desce um pouco de qualidade, com menos, e menos subversivas canções. Vale pela mais clara paródia aos musicais, gozando West Side Story, Grease, etc. E nunca pensei um dia vir a gostar da Kylie Minogue…

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