Como conseguir algo na vida tendo uma sorte do caraças.

Neste fim-de-semana decorreu em Lisboa mais uma edição do (renomeado) The Famous Fest. Desta vez decidiram expandir o conceito para além do humor, e tentar abranger a música, o clubbing, o teatro, etc. E decidiram convidar o Markl,  o Nogueira e o Melo para uma edição ao vivo do célebre podcast Uma Nêspera no Cu [iTunes]. Até aqui tudo bem.

O que não foi bom? Os bilhetes terem esgotado antes de eu saber da existência de tal espectáculo. Quando fui à Ticketline, o que é que dizia? Esgotado. Parece que lá libertaram alguns bilhetes na manhã de Sábado, mas depressa desapareceram. Sobravam apenas os de mobilidade reduzida. E aí eu ponderei seriamente partir uma perna para ter direito ao bilhete. Mas não ia conseguir uma cadeira de rodas em tempo útil. Portanto… Estava bem f*dido.

Mas decidi ir na mesma. Peguei na minha experiência passada de “espectáculos com lotação limitada cujos bilhetes desapareceram rapidamente” (como a recente exibição de The Rocky Horror Picture Show no MOTELx) e pensei que talvez me pudesse cruzar com a ínfima possibilidade de alguém ter um bilhete a mais que me pudesse vender – sempre pelo valor de face do bilhete, nada superior a isso.

Munido de mim próprio e conseguindo improvisar um letreiro com uma caneta e uma folha A4, lá fui para o LX Factory. E estava perfeitamente consciente de que ia ser quase impossível. Na boa: Se der, dá; se não der, volto para casa. Conformadíssimo.

Entro na Fábrica, decorada para o evento com muito roxo e vermelho. Deixam-me entrar para o Lounge, sem problemas, desde que não entrasse no auditório (o que obviamente não ia fazer porque não tinha bilhete). Chego lá, letreiro na mão, elevado à zona do peito. Acho que tinha boa leitura. E, claro, tinha pessoas a rirem-se à minha volta (é perfeitamente natural).

O que se passou a seguir é resultado de um misto de várias coisas: Empreendedorismo, Coragem, Calma e muita, muita lata.

Nem dois minutos depois de ter entrado um rapaz que eu não conhecia de lado nenhum vem ter comigo. Perguntou-me se eu queria um bilhete, eu disse que sim, e a pequena confusão que se criou à minha volta nos segundos seguintes –  com produtor e fotógrafo do festival ali à volta – ainda me fez pensar que teria sido alguém da organização. Mas não: Foi apenas um rapaz, um espectador, que estava com dois amigos e tinha um bilhete a mais. E eu disse que sim. Quanto era? €0. Era um convite. Que ele também teve a decência de não vender.

Rapaz, se estás a ler isto, muito obrigado. És dos bons. Há cada vez menos pessoas assim no mundo. Mantém-te assim.

O que é que aprendi com isto? Se querem uma coisa, façam por isso. Vão à luta. Se foi sorte? Não tenho dúvidas que foi. Mas se não tivesse tentado é que não conseguia mesmo.

Published by Manuel Reis

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