O dia em que fui banhado involuntariamente em sangria. Ou seja, uma quarta-feira para um caloiro.

Esta moda das carrinhas/piaggios/tuktuks de comida começa a enervar. Don’t get me wrong, é uma forma boa de servir comida. Já vai muito para além das populares barracas de bifanas, cachorros e hambúrgueres vendidos à saída das discotecas ou à porta dos estádios. São pizzas, são cachorros gourmet, são hambúrgueres gourmet, é sushi, é vinho, é fruta, iogurtes, saladas, merendas (que são pães largos abertos no topo, por onde se coloca uma refeição inteira – cozido à portuguesa, por exemplo)… Muitas vezes, coisas tão complexas que é difícil descobrir algo que me agrade.1

Isto tudo para dizer que a Feira do Livro de Lisboa decidiu este ano investir forte neste tipo de restaurantes. Ora, de todos os que existem, apenas contei 2 onde vá poder gastar o meu dinheiro (3 se contarmos pizzas sem queijo2 na Pizzaria do Bairro), e sempre nas opções mais baratas (não porque sejam mais baratas, mas porque são mais simples). O Cachorro Vadio, que costuma estar na Praça de Alvalade, é bom. Mas não é do cachorro que vou falar hoje.

A Food Armada, uma carrinha “em chamas”, que remete para comida picante (se fosse comida picante, não teria lá ido), que está na Praça Amarela (acima da Editorial Presença) da Feira do Livro de Lisboa até dia 14 de Junho, pode ser conhecida por quem costuma ir a jogos no Multidesportivo de Odivelas (quando não faz eventos costuma estar lá estacionada). Bem tratada, com um staff simpático, um negócio de família que, pelo que o chef Gonçalo me disse, está a correr bem.

Peço um hambúrguer. Clássico. Sem mostarda nem compota de cebola; só com alface. Carne de porco e vaca, 50/50. Em bolo de caco (outra coisa que está tão na moda que já deixou de ser peculiaridade, já é hábito). 5€. Não está mau. Não peço bebida (detalhe importante para o que se segue). Desvio-me rapidamente para o lado, para perto da caixa registadora, que tem um mini-tanque cheio de sangria (não mais que 5 litros), porque a fila é grande e a Marisa, que está a recolher os pedidos, está um pouco nervosa. Porque trabalhar num espaço destes pode criar alguma claustrofobia: Para além dos poucos metros quadrados, são também poucos metros cúbicos e não ajuda que o nosso espaço de trabalho esteja sempre a abanar a cada movimento que façamos ou que a carrinha esteja estacionada num declive.

E foi aí que o tanque caiu e me acertou na boca.

Primeiro ponto positivo: A sangria estava boa. Doce, alaranjada. O álcool percebia-se no sabor, mas pouco se sentia (o que eu acabo por valorizar, não sou grande fã de bebidas alcoólicas). Também ajudou, de certa forma, a desinfectar a ferida no lábio (que, três horas depois, era um grande inchaço). O pânico instalou-se na cara da Marisa, os pedidos continuavam-se a acumular, eu estava ferido, ela queria-me devolver o dinheiro, eu recusei, mas o espectáculo tem de continuar e a comida tem de ser servida. Vim-me embora, não sem antes garantir que não havia qualquer problema da minha parte.

Apesar deste incidente, o hambúrguer estava razoavelmente bom. Não sendo o melhor hambúrguer do mundo, vale o dinheiro que se paga por ele.

Voltei lá duas horas depois. Já não havia carne. Ainda estive à conversa um pouco com eles. O Gonçalo pediu-me (mais uma vez) desculpas, a Marisa ainda recuperava do ataque de pânico que teve. É boa gente, têm ali um bom negócio com boa comida… Apenas estavam colocados num mau sítio (provavelmente a APEL vai ter isto em conta, acredito eu ingenuamente), e eu estava no pior sítio, no pior momento. São coisas que acontecem.

Quem aproveitou foram os meus amigos3, que receberam todos sangria e nachos. O que é que me diz um deles? “Agora vais ali ao stand da Gradiva esperar que te caia uma estante em cima. Assim ainda recebes a colecção completa de Calvin and Hobbes.”

Vai para a fila, amigo. De Calvin and Hobbes eu já gosto.


  1. Sou impossivelmente esquisito com a comida… Mas isso fica para outro dia. 
  2. Estão a ver? Não gosto de queijo. Esquisitice. 
  3. Mais uma vez, sou esquisito com a comida. 

Published by Manuel Reis

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